terça-feira, 11 de março de 2008

Apertando

Descobri, ontem, que a distância entre o perto e o longe equivale a um minuto e 32 segundos de abraço. Mas não foi nesse momento que me dei conta de que o perto não era mais perto e havia se tornado, de uma hora pra outra, longe. Foi no tempo de dormir, quando senti aquele perfume no ar, sem saber de onde vinha. E, então, acordei: “É, virou bem longe!”, disse aos gritos. Mais especificamente, 9.779 quilômetros de lonjura é a distância que separa dois corpos no espaço. Caminhada grande esta, não? Não poderei pegar meus patins e nem minha bicicleta estacionada na garagem. Não vai adiantar pegar carona na rua e nem chamar um táxi. E, se eu gritar bem alto, com toda a minha força, ninguém vai escutar. Aí, com medo de ter que chamar e não ter respostas, fecho os olhos e passo a pensar tão, mas tão forte, que, com o pensamento, faço mágica e transformo o tão longe em um tantinho mais perto, de quase poder sentir o macio dos cabelos entre os dedos, no vai-e-vem do acarinhar.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Desdobrável


Eu amo essa poesia da Adélia Prado. Hoje, amo ainda mais.

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O segredo


- Mãe, por que o escuro é tão escuro?
- (ri, de canto de boca, escondido) Filha... - percebe a seriedade da expressão da menina, e fica séria - O papai te explica melhor.
- (indignado, também escondendo o riso) O papai?
Os olhos castanhos amendoados fitando-o com a preocupação de quem não vai se contentar com qualquer resposta.
- Filha, vou te contar um segredo. Tão secreto que nem a mamãe pode saber.
Foi como se dissesse "nem Deus pode saber".
- Nem a mamãe?!
- Nem.
A mãe sai da sala.
Cochichos.
- Pai, não é, não é...
O pai vira menino.
E a menina chora, pela primeira vez, a vida.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Saudade


Antes de dormir, quase sempre me pego pensando, já deitada, em tudo o que aconteceu no dia que passou. Ontem pensei em saudade. Tudo começou depois de ter ficado por um bom tempo ao telefone com uma grande amiga que, hoje, mora longe. Pensei em tudo o que já vivemos juntas, desde crianças, e em todo o correr do tempo. Das nossas brincadeiras, descobertas, aventuras. Quanta saudade eu senti das horas em que passávamos sentadas em frente à quadra ou atrás do prédio conversando, tentando adivinhar o futuro. Deu saudade dos fins de semana na chácara dela, das cangas estendidas no gramado, do nosso tarô mágico, das histórias malucas da adolescência. Tive saudade até da manteiga de cacau que eu carregava para todos os cantos.

Por um certo instante, quis entrar na máquina do tempo e voltar para aquelas memórias.

Aliás, tenho sentido muita saudade nessas últimas semanas. Saudade das mensagens inusitadas no meio do dia ou da madrugada. Saudade dos e-mails. Saudade das coisas que nem sequer acabaram, mas que eu já sinto falta. Saudade de algumas pessoas, saudade da bolachinha de nata, saudade da Mary Poppins, das tardes vazias, daquelas companhias. Saudade de 10 anos atrás. Saudades plurais.

Para mim, saudade é a filha mais velha da dona lembrança e do senhor melancolia, que, por sua vez, é primo da nostalgia. Ela só pode ter vindo dessas junções. Quando a saudade bate triste vira melancolia, mas quando nos faz sorrir, é porque veio de uma lembrança boa.

Sentir saudade não é ruim. Gosto de senti-la, pois só assim consigo olhar para trás e ver o que passou. Dói, eu sei, sentir saudade de uma pessoa que já se foi, mas nem por isso a saudade deixa de ser bela. Acredito que a morte é uma grande causadora de saudade. Algumas pessoas e alguns momentos serão apenas saudade mesmo, é preciso conviver com isso. A saudade eterniza tudo e o legal dela é poder relembrar. Mais legal ainda é quando dá pra “matar a saudade” com um abraço apertado, desses que tiram o fôlego.

Quando pequena eu tinha raiva de certas saudades. Não entendia o porquê daquele sentimento que me trazia lágrimas. Aí descobri que no começo não é saudade, mas sim a dor da perda, a falta, uma angústia, uma melancolia. Até que lembrei o que naquela época me fez chorar e senti uma saudade doce, boa. Mais uma vez entra o Tempo para desmistificar as coisas. Descobri, ainda, que “saudade” são plantas. E também são poucos os países que têm uma palavra para traduzir a vastidão desse sentimento tão profundo.

Saudade, no “Aurélio”, se define assim: lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia. Pesar pela ausência de alguém que nós é querido.

Gosto de outras duas definições. Uma delas ouvi em “Cinema, Aspirinas e Urubus”: “saudade é bom porque passa”. Tão bonito. É verdade, a saudade é passageira. Vem com um momento e logo se vai. Às vezes dura minutos, horas, pode ficar por um dia inteiro, alguns instantes, mas sempre passa. Será que existe saudade eterna? Acho que não, talvez uma falta eterna, mas não saudade. E entre as veredas de Guimarães Rosa li essa explicação: “toda saudade é uma espécie de velhice”, disse ele na voz de Diadorim. Pois é assim mesmo, envelhecemos a cada saudade.

Pensando na imagem para ilustrar o post, encontrei essa cadeira vazia, nessa sala vazia. E senti saudade.

terça-feira, 4 de março de 2008

Dica

Um pouco de lá, por aqui...

GUIMARÃES ROSA – 100 ANOS

A PUC SP inicia suas atividades acadêmicas com uma justa homenagem ao escritor Guimarães Rosa, em comemoração ao centenário de seu nascimento. Homenagem à genialidade, à criatividade, à visão crítica sempre presente em suas obras.
O TUCA – espaço de cultura da PUC - recebe, nos dias 11, 12 e 13 de março, estudiosos de Literatura, pesquisadores e artistas que têm a obra de Guimarães como fonte de criação para seus trabalhos.
Além da exposição de pesquisas em palestras e debates, haverá a presença de contadores de histórias, músicos, grupos de teatro, bordadeiras de Minas Gerais e de S.Paulo para trazer para o público um pouco da magia de Guimarães.

Programação

11 de março
9h30 – 12h00
Abertura oficial – Vice Reitoria Acadêmica
José Mindlin – Encontro com o escritor. Histórias de livros.
Beatriz Berrini – O sertão brasileiro na savana moçambicana
Francisco Papaterra apresenta os textos:
Canção de Siruiz (Grande Sertão: Veredas)
A 3ª. Margem do Rio (Primeiras Estórias)

14h00 – 18h00
DIVERSIDADE DE OLHARES NA OBRA ROSEANA
Coord. - M. Aparecida Junqueira
Alunos e professores da PUCSP apresentam seus trabalhos de Criação, Iniciação Científica, mestrado e Doutorado sobre a obra roseana.
Programação detalhada a ser divulgada.

19h30
CANTANDO GUIMARÃES
Jean e Joana Garfunkel apresentam músicas inspiradas nos contos do escritor.

20h30
CONTAÇÃO DE ESTÓRIAS
Dôra Guimarães e Elisa de Almeida, contadoras de estórias do Grupo Tudo Era Uma Vez de Belo Horizonte, e Tiago Goulart, do Grupo Miguilim de Cordisburgo, apresentando contos de Guimarães, conforme programa em anexo.

12 de março
9h30
Sandra Vasconcelos - Manuscritos e Documentos de Guimarães Rosa no Instituto de Estudos Brasileiros/USP
José Osvaldo dos Santos (Brasinha) – Personagens e Lugares: Ficção ou Realidade?
Maria José Gordo Palo – O imaginário no realismo de Guimarães Rosa.

15h00
Contadores de Estórias de Minas (repetição do programa de 11/2) ingressos para escolas e público em geral.

20h00
A Hora e Vez do Augusto Matraga
Papaterra e Filhos apresentam o conto do livro Sagarana.

13 de março
20h00
MULHERES DE ROSA
Atores, formados no Curso de Artes do Corpo da PUCSP apresentam Monólogos extraídos da obra de Guimarães. Direção José Rubens Siqueira

EXPOSIÇÃO
No saguão do TUCARENA serão expostos os bordados:
Painel inspirado no Grande Sertão: Veredas: são 5 painéis de 1 mt. X 6 mts.
Painéis menores inspirados nos contos Buriti, Estória de Lélio e Lina, Miguilim, Sorôco,
Mapa do Coração – desenho feito por G.Rosa à Da. Aracy.

Bordados feito pelo Grupo Teia de Aranha (SP). Grupo de amigas estudiosas da obra Roseana. A partir da leitura de um conto do escritor, o grupo desenha as imagens sugeridas e borda. Este grupo desenvolve Oficinas de Bordado em cidades mineiras como Cordisburgo, Morro da Garça, Andrequicé, e em vários espaços de S.Paulo.

Fotografias:
Memória viva do sertão roseano – foto de pessoas e lugares da pesquisa desenvolvida pela doutoranda da USP Beth Ziani.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Rodando


Ontem fui jantar com um amigo mais velho muito sabido. Por ser um colega jornalista (tomo a liberdade de chamá-lo assim), evidentemente ele me dá vários conselhos profissionais. Mas, vez ou outra, conta um causo e, depois, faz uma pausa, muda a expressão e, com ar de seriedade - embora sem apontar dedos -, elabora uma frase sobre a vida. Então dá risada, como se estivesse aliviando uma tensão, o latente desespero, eu acho, que todos nós sentimos por não entender ao certo o porquê de estarmos vivos. Ontem, ele exclamou: "Sabe o que é a vida para mim, Giovanna? É uma grande poltrona cheia de gavetas. A gente abre uma, fecha outra, abre aquela primeira de novo, dá uma arrumada na bagunça, fecha." Gostei.

Difícil não gostar de alguém que leva a vida com verdade. Tenho falado muito nisso ultimamente: levar a vida com verdade, ser verdadeira. É que fiquei encantada com essa simples descoberta. Depois que passei a entender melhor quem eu sou e o que se passa dentro de mim, comecei a ter muito mais prazer na companhia de pessoas que, percebo, também tentam levar a vida deste modo. Este meu amigo é um camarada que, com todas as suas importantes ocupações, consegue estar presente em um jantar no meio da semana com uma jovem cara-de-pau que o procurou com seu CV na mão há mais de dois anos pedindo um emprego. Por que ele me dedica atenção? É um homem de respeito, bem sucedido. E ele ouve o que tenho a dizer. Eu, zé ninguém, eu e meus papéis, eu e meu cigarro, eu e minha vida cor-de-rosa. Isso me emociona.

Esses dias, li um texto da Adélia Prado, por quem cada vez me apaixono mais, chamado "Rodando". Vi o título e na hora lembrei de uma foto da qual gosto muito, tirada no dia do meu aniversário. A ciranda da bailarina. Eu me identifiquei muito com o texto da Adélia, embora, assumo, não o tenha postado neste blog ainda porque não estou me sentindo alegre ultimamente. Rodando, rodando, rodando. "Rodando" me lembrou as gavetas da poltrona de meu amigo, que me lembrou, por sua vez, outra frase que escutei há pouco tempo. Quem falou foi uma chef de cozinha, a graciosa D. Benê: "A vida é legal".

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Azuis em hastes largas


Tudo começou com uma pergunta simples: "Você gosta de crianças?". No dia seguinte eu estava lá, a caminho do desconhecido, de algo que nunca tinha imaginado passar. Lembrei dos meus seis anos. Apesar da primavera, a manhã estava cinza e chuvosa. Meus pensamentos viajavam, era um novo do velho de algo que já tinha me feito chorar, algo que tinha me tirado as lágrimas ainda criança, iguais aquelas que eu estava prestes a descobrir.

Cheguei. A sala de espera estava abafada e cheia, muito cheia. Confesso, tive receio de olhar. Não queria sentir pena. Não quis sentar, fiquei parada e aos poucos comecei a reparar. Vi olhares tristes e cansados, mas esses eram dos pais. Dos pequenos eram curiosos e prontos para enfrentar uma vida que nem começou direito e já quer ir embora.

Muitas delas não tinham pernas ou braços, outras estavam cegas, outras tinham várias feridinhas pelo corpo, mas elas tinham algo em comum: as carequinhas. Todas elas estavam sem cabelo. Logo lembrei da minha vó e do seu lencinho na cabeça.

Depois de uma espera de uns 20 minutos, uma moça muito simpática nos chamou p/ subir p/ brinquedoteca. Estávamos meio tímidos, entramos e a sala já nos acolheu. Nossa, quantos brinquedos, tinha até um armário/palco em formato de árvore com fantasias dentro. Tinha diversão para todas as idades, jogos, computadores, carrinhos, bonecas e muita criança. Elas estavam por todos os cantos, sentadas, brincando, correndo, gritando, rindo....

Começamos conversando, nossa tarefa era difícil, tínhamos que achar um rosto alegre e conversar, saber as brincadeiras preferidas, se gostava de sorvete ou chocolate, cachorro ou gato. Começamos a brincar e aquele sentimento de antes não existia mais. Esqueci pq aquelas crianças estavam lá, esqueci que eram carecas, que não tinha pernas, ou que não enxergavam com um dos olhos. Brincamos.

Depois que fui embora lembrei da minha vó e da minha postiça. Lembrei dos olhares e entendi o motivo. Lembro daqueles olhinhos tristes e azuis através dos óculos de hastes largas e daqueles espertos com sede de vida e vontade de viver. Aquelas crianças estavam mais vivas que eu, ou melhor, muito mais vivas. Elas estavam lutando, tinham força e conclui isso quando outra moça simpática me falou: "90% delas sobrevive".

Pensei em como às vezes somos pequenos e egoístas.

A menina que virou cama


Um dia ela ganhou uma cenoura recheada de castanhas glaceadas - era o que dizia a embalagem, pelo menos. "Tipo aquelas que você encontra em barraquinhas espalhadas pelos shoppings? Aquelas que têm um cheiro absurdo de bom?". Tipo aquelas, o release respondeu. Hmmm. Então resolveu que daquele dia em diante iria guardar a cenoura num esconderijo e todo dia pegar uma castanha. Um dia noz pecan, noutro macadâmia. Colocaria a castanha glaceada na boca, deixando o açúcar derreter lentamente. Estes seriam seus momentos de pausa no dia. Os momentos em que de fato pararia para refletir (já reparou que não refletimos muito quando há tempo e refletimos demais quando não se deve refletir?). Resolveu então fazer uma promessa: sempre, quando o açúcar começar a derreter, começo a derreter dentro de mim tudo aquilo que quero expulsar do coração. Arrrg, não, piegas demais, pensou. Já sei! Quando o açúcar começar a derreter, imagino que o mundo foi invadido por doces, que meu computador virou um bolo de chocolate com muita cobertura de brigadeiro e o telefone um irresistível cheesecake - com raspinhas de limão, em homenagem à Jo. E podia transformar o móbile que fica em sua mesa, um arco cheio de vários papéis coloridos, em docinhos: um de leite condensado com uva, um de chocolate crocante, um beijinho. Clichê. Todo mundo já pensou um dia em ter um móbile de docinhos. Depois que comeu meia dúzia de castanhas glaceadas, já meio amolecidas, desistiu da promessa. Saiu para ver a luz do dia, feliz com a desculpa de que precisava gravar um CD. E encontrou um cachorrinho na vitrine. "Eu quero virar um cachorro filhote". Imagina ser um cachorro filhote, desses bem fofinhos? Bilubilubilu. "Eu quero ser o poupa-tempo móvel instalado no Carrefour Limão. Aí todo mundo ia olhar para mim e dizer 'que legal, um poupa-tempo móvel!', e sorrir, pelo menos um instante no dia". Eu queria só fazer as pessoas sorrirem. Como se eu fosse uma cama, macia. A menina que virou cama, de Tim Burton. "Sua cabeça branqueou, inchou, cresceu. E se transformou num macio travesseiro (...) Sua pele, que se guarneceu por dentro, de estopa e de flocos muito grosseiros, ganhou revestimento de um tecido de algodão cem por cento. (...) E o resultado de tão grande esforço foi um belíssimo colchão de molas."