quinta-feira, 8 de maio de 2008

Alô Doçura


Só hoje tive umas mil idéias para escrever. Não sei explicar como, nem porque, mas elas permanecem por pouco tempo na minha cabeça. Quando eu vejo, a idéia fugiu, junto com mais um monte de coisa que eu penso e despenso a cada segundo.
Tenho percebido o quanto eu sou dispersa. Acho que é aquela velha vontade de agarrar o mundo inteiro com as duas mãos.
Agora mesmo, abri esse post pra escrever alguma coisa, que eu não lembro mais o que era.
Que coisa, não? Esse tal mundo moderno...
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Uma coisa nada moderna, bem antiga aliás, são as variações hormonais das mulheres, quando estamos "naqueles dias" (odeiooo essa expressão). Sinto-me uma louca. De repente a vida é melancolia pura. Tudo parece ter um ritmo de música francesa, com acordeon, do tipo Yann Tiersen, que fez a trilha da Amélie Poulain, especificamente aquela música La Valse d´Amélie, triste, pausada, trágica, emocionante e principalmente profunda. Tudo é muito profundo. Ai, ai.. Queria estar me sentindo assim em Paris. Enquanto isso não acontece, devorei meia caixa de bombons Garoto. Lembra do bombom Alô Doçura? Pois é...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Sinalizando

Acredito e sempre acreditei em sinais. Dos mais imperceptíveis aos mais evidentes, que aparecem quando peço e preciso. Não sei como serão e nem sei o que querem dizer, mas reconheço-os e sei que surgiram só pra me dar a direção certa, mesmo que eu não saiba diferenciar, nesses casos, o certo do errado. Aliás, nem sei se a vida tem certos e errados. Antes de fazer ou decidir algo, fecho os olhos e peço. Normalmente, o que move é a ângustia de não se saber pra onde ir. Ai fico quieta e penso: "Ei, alguém aí de cima, por gentileza, poderia me dar uma luz, um sinal, uma resposta?" Aí, é pá-pum. É uma chuva repentina, um telefonema, uma janela se abrindo ou de msn pulando, uma frase de horóscopo quase sempre sem-sentido, um olhar, um abraço, qualquer coisa.
Às vezes (na maioria delas) fico ainda mais confusa. Não por causa do sinal, mas por ser mesmo uma pessoa confusa e, confesso aqui, com voz baixa ao pé do ouvido, que, em alguns momentos, sou também um pouco descorajosa. (Inventei palavra nova, pois não gosto da palavra covarde, é extrema demais e não permite meio-termo. O mesmo vale para a preposição "sem", na expresão "sem coragem"). Fico lá, pensando sozinha se quero ou não quero, se vou ou não vou, e acabo por deixar como está. Até alguém vir, de mansinho e "búuuuu" tomar a decisão por mim.
Depois de um feriado desses, de horas rolando na cama, de tempos sozinha no decorrer das tardes frias (mas ensolaradas, daquelas que não, não dá pra se passar sozinha e, quando só, o mundo parece ainda maior por trás da gente) as oportunidades de se questionar foram tantas, tantas que me perdi em pensamentos e decidi não mais pensar. Só, como sempre, me deixar levar. E foi assim, que um sinal da vida me apareceu, de surpresa. Uma voz importante chamou à porta e pediu licença para entrar. E, de mansinho, despertou, com palavras e sorrisos arrancados, uma sensação boa de lembrança, de paz e de vida vivida com intensidade e vontade. Um sinal, com certeza! De alguém lá de cima me mostrando que não há decisões a se tomar enquanto "sims" ou "nãos" não me forem cobrados.E nem sei se um dia serão...
Se um dia, por acaso, forem, aí sim, fecho os olhos e peço: "ei, alguém aí de cima, por gentileza, me mande um sinal que me dê coragem para arriscar?"

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Trafegando


Acordei às 8h45, acendi o abajur - ainda com os olhos fechados -, puxei o telefone do gancho e disquei o número. Ocupado. Tudo bem, não vou me estressar no primeiro minuto do dia, né, pelamor. Virei para o outro lado da cama, o da parede, e esperei alguns segundos. De manhã, antes de me levantar, gosto de contar até 30. "1, 2, 3....". No 30, eu levanto. Não, não é toc ou qualquer coisa do gênero, juro. Eu posso muito bem não levantar no 30; mas gosto assim, ué. Bom, voltando. Liguei de novo para el tráfego. "Oi, Djair, é a Giovanna, tudo bom?", disse, sem nem cogitar disfarçar minha rouca voz de sono. Ele: "Giovanna?! Acordada a esta hora?". Fiquei imaginando o que passou pela cabeça do Djair para dizer isto. Será que ele acha que não tenho cara de quem acorda cedo? Ou então está tão acostumado a me ver no jornal tarde da noite, mendigando uma carona, que não achou que eu pudesse levantar da cama antes das 10hs. Ou, who knows, deve ser um costume dele falar isso para as pessoas, de manhã. "Oi Fulano! Acordado a esta hora?". Rs. De qualquer forma, nada como começar o dia com uma coisa inesperada, mesmo que ela seja bobinha, como essa.

Desliguei o telefone e fiquei morgando na cama mais meia hora, pensando em meu itinerário ("Mercadão-Liberdade-Santa Luzia....ou Santa Luzia-Liberdade-Mercadão?"). Vesti a malha cor-de-rosa que ganhei da tia Carlota, uma meia bem quentinha, um sapato velho de guerra e um cachecol xadrez. Às 10h05, achei que o carro do tráfego estaria me esperando lá fora. "Eles não tocam a campainha, né, filha?", comentou, apropriadamente, meu pai. 'Eles' são os motoristas do Estadão. Só uma interrupção: nunca me esqueço quando minha irmã virou pra mim e disse "tráfego???", com uma cara de espanto, achando que se tratava de "tráfico". Continuando: o motorista da vez era o Prado. Ele tem olhos verdes e cara de quem entende de caminhos. E vestia, nesta sexta-feira-cinza, um casaco muito mais adequado do que o meu. Conversei um pouco com o Prado, que me fez lembrar (ok, memória bizarra) de O Diabo Veste Prada - assisti ontem, por acaso, na tv - e que, por sua vez, me fez lembrar da Prada, a grife, e lembrei, ai, como quero uma bota marrom de cano alto para usar com minha calça jeans skinny, a próxima aquisição. Consumista (não me orgulho...). Na melhor das hipóteses, alego: foi tudo idéia do Oscar Wilde.

Impressionante, mas as conversas com os motoristas do tráfego são sempre muito inspiradoras. Tenho na cabeça dezenas delas; algumas anotadas no bloquinho da Audrey Hepburn que carrego comigo. Gosto dos apelidos que eles inventam uns para os outros, de saber quem são eles, se são casados (quase sempre são divorciados), se têm filhos, o que fazem no fim de semana, aonde moram, qual boteco freqüentam. Ontem mesmo conheci um motorista tão gente fina que fiquei com vontade de dar a mini-champanhe que carregava na bolsa para ele. José. É o Zé, pai zeloso da Mayara, que trabalha quantas horas forem necessárias de segunda a sábado. Os domingos são preciosos, ele me explicou. "Acordo cedo, deixo a casa em ordem e espero a Mayara, que mora com a tia dela, chegar. Aí coloco minha bermuda, um chinelo, e vamos, juntos, comer no Ceará".

Bom, tudo isso para dizer que, em busca de uma bendita pasta de amendoim chamada Amendocrem, no centro, tomei um dos melhores banhos de chuva do ano (a pasta, fui achar em uma estante do Santa Luzia). Encharcada, fumei um cigarro delicioso no posto de gasolina "H" ao lado do Mercadão, devorei bolinhas de wasabi no carro e agora estou aqui, no quentinho da redação. Uma parte do coração, na Louisiana.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O carteiro e o poeta


"Quando você foi embora, pensei que tivesse levado as coisas belas daqui, mas agora percebi que deixou algo para mim"

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Dias coloridos


"Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo está certo. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer."


O texto 'Rodando' está no livro Filandras, de Adélia Prado

domingo, 27 de abril de 2008

No mundo da lua


Nina era uma garota observadora. Desde muito pequena passava horas admirando a lua e as estrelas. Era dona de um jeitão atrapalhado, porém muito gracioso. Tinha os cabelos escuros, olhos amendoados, bochechas rosadas e pernas compridas. Gostava de sair pelo parquinho e conversar com todos ao redor. Era tagarela que só ela, mas sabia guardar as palavras nos momentos certos.

No dia de seu aniversário de 11 anos, seu pai a tirou do meio das bexigas, dos brigadeiros e refrigerantes, e em plena festa, a levou com os olhos vendados, para a varanda. Estava lá o seu presente: um telescópio.

— Papai, não acredito. Vou poder ver a lua mais de perto! (correu em direção ao pai e lhe deu um beijo estalado)

Depois disso, ninguém mais podia com a menina e seu telescópio. Muitas tardes e noites eram passadas detrás do objeto. Não ficava paralisada, somente, olhando o céu, coisas e pessoas, acho que o telescópio fazia Nina sonhar. E, sonhando, ela viajava para bem longe. Assim como fazia o Lucas Silva e Silva, seu personagem favorito.

Passaram-se os anos e, Nina já mulher, continuava querendo desvendar os mistérios dos lugares distantes. Lá para as bandas da lua. Nunca quis ser astrônoma. Não sonhava em um dia conhecer a lua de perto ou nenhum planeta sequer. Preferia imaginar e só olhar de longe.

Ela achava muita graça em comparar as fases da lua com as fases da sua própria vida. Vivia dizendo: “tenho fases, como a lua. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua...Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha”. (desconfio que Cecília Meireles tenha conhecido Nina antes de escrever o poema)

E todos os dias eram assim. Sentava-se bem perto do telescópio e esperava pelas próximas fases.

O tempo foi passando e os cabelos escuros deram espaço aos fios esbranquiçados e, Nina já velhinha, contava aos netos suas aventuras no mundo da lua. Ensinava a eles o nome de algumas constelações, numa data especial lhes "dava de presente" uma estrela e, principalmente, deixava-os livres para que cada um visse a sua própria lua.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Homenagem à Gabriela

Pra mim é vermelho. Mas o nome é Gabriela. Com as unhas pintadas, me sinto mesmo um pouco Gabriela. Quero conhecer Gabriela. É cravo, é canela, é poema. Fico imaginando como deve ser a mulher que deu nome à cor das minhas unhas. A cor de seus cabelos, da sua pele, de seus olhos, o seu jeito de andar, o que faz para viver. Imagino seus pés, com unhas pintadas de vermelho, ou será Gabriela? Em uma plataforma, suas pernas compridas cobertas apenas pela mini-saia jeans. Camiseta branca contrastando com e pele negra, cabelos castanhos compridos e soltos. Gabriela deve ser atendente de telemarketing ou recepcionista de loja de shopping. Gabriela faz musculação nas horas vagas e supermercado aos fins-de-semana. Gabriela mora em uma casa de três cômodos junto à filha. Gabriela tem um fusca branco e não usa celular. Nas noites de sábado, Gabriela deixa Ana com a avó e vai curtir as noites de funk no morro. Volta de manhã, descalça, desacompanhada, para levar Ana à praia. Gabriela vai às segundas ao terreiro de mãe Vilma, pedir proteção aos Orixás. Às segundas, Gabriela chora baixo antes de dormir.Não conheço Gabriela, mas imagino que Gabriela seja assim.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Roda Gigante


A vida corria num movimento constante. Rodava. Mas não como roda de carro ou bicicleta. Era como uma grande roda, uma roda gigante! Beatriz ficava pequena diante da imensidão daquele brinquedo que ia e vinha. Ora lá em cima, ora bem debaixo.
Certo dia descobriu que a vida também era como uma roda, que passava circular, cheia de voltas, num eterno vai-e-vem, embora, às vezes desordenado. Era uma roda de sorrisos, tristezas, dúvidas, sonhos. Cada banco colorido da roda gigante representava algo. A tal roda era cheia de segredinhos. Alguns bem doces, outros amargos, azedos...

Beatriz também gostava de rodar seu vestido. Até que saiu por aí rodando, rodando. E, de tanto rodopiar, foi bater na porta de Nietzsche, que lhe disse baixinho:


“Tudo vai, tudo volta;
eternamente gira a roda do ser.
Tudo morre, tudo refloresce,
eternamente transcorre o ano do ser.
Tudo se desfaz, tudo é refeito;
eternamente constróí-se a mesma casa do ser.
Tudo se separa, tudo volta a se encontrar;
eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser.
Em cada instante começa o ser;
em torno de todo o “aqui“ rola a bola “acolá “.
O meio está em toda parte.
Curvo é o caminho da eternidade”.