O Gordo passava nas Cigarras de vez em quando. Nunca avisava quando vinha. Minha mãe e minhas tias ficavam eufóricas, alertando quem cruzassem no caminho, como quem alerta que hoje vai chover: "O Gordo está aqui!". Ele vendia sonhos em São Sebastião, os melhores que já provei. Macios, deliciosamente incorretos na medida do recheio, cheirosos, grandalhões. Mas conseguiam ser ao mesmo tempo delicados ― de um jeito que você podia comer mais de um e não ficar nem fatigado nem satisfeito. O Gordo não entrava no clube, ficava lá na porta e carregava os sonhos em uma cesta coberta por um pano. Não dava pra preferir com doce de leite ou creme porque a acirrada disputa impossibilitava o direito de escolha. Só sei que minha mãe me entregava o sonho enrolado no guardanapo, ainda quente, e vinha aquele cheiro de açúcar misturado com o cheiro do pão. Bobagem. Não dá pra descrever cheiro. Se a MFK Fisher escreveu, eu me permito, agora: sei lá. Era cruel de tão divino. Quando acabava de comer, vinha uma certa tristeza porque era provável que só comesse de novo o sonho nas próximas férias de verão. Mas tudo bem, o Gordo sempre voltava. Um dia, não voltou. "Morreu de aids", diziam. Eu preferia não pensar muito no assunto, como não dá pra imaginar que o Clube Praia das Cigarras foi vendido e vai virar condomínio de luxo. Hoje eu comi um pão cujo cheiro provocou a memória e me fez lembrar do Gordo. Então eu pensei que alguém que passou a vida alimentando as pessoas de sonhos merece o sono dos justos.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
O sonho do Gordo
O Gordo passava nas Cigarras de vez em quando. Nunca avisava quando vinha. Minha mãe e minhas tias ficavam eufóricas, alertando quem cruzassem no caminho, como quem alerta que hoje vai chover: "O Gordo está aqui!". Ele vendia sonhos em São Sebastião, os melhores que já provei. Macios, deliciosamente incorretos na medida do recheio, cheirosos, grandalhões. Mas conseguiam ser ao mesmo tempo delicados ― de um jeito que você podia comer mais de um e não ficar nem fatigado nem satisfeito. O Gordo não entrava no clube, ficava lá na porta e carregava os sonhos em uma cesta coberta por um pano. Não dava pra preferir com doce de leite ou creme porque a acirrada disputa impossibilitava o direito de escolha. Só sei que minha mãe me entregava o sonho enrolado no guardanapo, ainda quente, e vinha aquele cheiro de açúcar misturado com o cheiro do pão. Bobagem. Não dá pra descrever cheiro. Se a MFK Fisher escreveu, eu me permito, agora: sei lá. Era cruel de tão divino. Quando acabava de comer, vinha uma certa tristeza porque era provável que só comesse de novo o sonho nas próximas férias de verão. Mas tudo bem, o Gordo sempre voltava. Um dia, não voltou. "Morreu de aids", diziam. Eu preferia não pensar muito no assunto, como não dá pra imaginar que o Clube Praia das Cigarras foi vendido e vai virar condomínio de luxo. Hoje eu comi um pão cujo cheiro provocou a memória e me fez lembrar do Gordo. Então eu pensei que alguém que passou a vida alimentando as pessoas de sonhos merece o sono dos justos.
domingo, 12 de outubro de 2008
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
sarau

Quem me avisou foi a Rosa Haruco Tane, conhecedora da obra de João Guimarães Rosa. Ai, não poderei ir, mas acho que vai ser bacana pra caramba. A Joana eu já ouvi uma vez, o trabalho dela é lindo. Vá lá!
A Comitiva Sertãocidade realiza seu primeiro sarau
Quem vai estar lá: nessa paulicéia desvairada, as vozes de Wagner Dias, Tia Dita, Jean Garfunkel, Magna Martins, Vera Márcia e Joana Garfunkel. Eles vão mostrar suas histórias, músicas e poesias
Quando: 7 de outubro, terça-feira, a partir das 19hs
Onde: Espaço Alberico Rodrigues, que fica na Pça. Benedito Calixto, 159, em Pinheiros
Famintos por mais informações: tel. 3064-3920 e www.espaçoalberico.com.br
Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (estudante e acima de 60 anos)
Na foto Luana, contadora de histórias do Grupo Miguilim, com o irmão na janela de sua casa, em Cordisburgo, MG
terça-feira, 30 de setembro de 2008
vespertinas
Uma música flamenca. O violão que rodeia enquanto ela se curva, delicadeza e sensualidade, a alma quase sai do corpo, retorna, rodopia no ventre e estremece cada pedaço daquele corpo feito de carne e prazer.
Bocas frescas como a madrugada. Tomava vinho enquanto cantarolava "La Vie en Rose". Juntos, dançavam como antigamente.
Morava no país das sinfonias coloridas, como aquele quadro de Kandynski. Gostava da palavra sussurro. Só de ouvir, se arrepiava.
Um dia descobriu que tudo não passava de uma ficção.
La femme a dit oui

Elas tiram fotos que depois serão colocadas em álbuns virtuais. Com alguma sorte (e uma dose de nostalgia) em murais. Não são mais de cortiça, as fotos não furam mais. Ficam pregadas em ímãs coloridos. Com alguma sorte, de Olinda. Mas as moças nem sabem. São quatro e estão sentadas na mesa do canto esquerdo do bistrô. Uma delas amarrou o casaco por cima das costas. Talvez fossem um quarteto na faculdade. Dão risada das fotos que já podem ver no visor da máquina digital, que nem deve ser mais chamada de digital. Coisa cafona, toda máquina hoje é digital. Não imagino o que conversam, não quero. Só observo deliciada o jeito como se divertem, como bebem vinho. A namorada da mesa vizinha leva à boca do namorado uma garfada de quiche, repreendendo-o com estudada espontaneidade: "Você nunca deixa". E ele chega. Chega e dá um gole no vinho e me rouba um beijo e diz você nem se assusta, né. E assim, distraída, quando achava-me sabida observando o lado de lá, tomei o susto mais doce da vida.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
sábado, 20 de setembro de 2008
Grandes

Ela se sente vazia, me diz. Diz que multidão alguma consegue preencher o vazio e desatar o nó da garganta. Caminha pelas ruas do centro, pinta telas no banheiro, improvisa gestos sedutores, repica o cabelo e faz, do lagarto, poesia. Mas falta algo, ela me diz, ao telefone. Eu peço calma, sugiro que esse período enfadonho vai fazer com que entenda sua arte, ajudá-la a pegar sua força, formar a mulher. Não fique pensando muito, matutando, racionalizando. Ela diz que vai tentar, a voz cheia daquele alívio que deixa momentaneamente tudo morno e macio. Geralmente, pouco tempo depois, passa. É como voltar de um final de semana em Pedra Bela. Passa. Mas abre uma fresta, refresca. Ela, não a mesma, está aflita. "Não aparece há dias". Fuma meu cigarro e pergunta como deve agir, sem esperar resposta. Sabe que o que está acontecendo é resultado da dorzinha apertada e miúda da semana passada. Só que de repente não quer saber, o medo faz com que não veja. O medo sempre embaça a visão, é uma miopia que não se conserta usando óculos. Penso em recomendar jazz e uísque. Eu queria jazz e uísque aquele dia. Ao invés disso fomos, juntas, durante um instante, para uma ilha paradisíaca. "Por quê não consigo esquecer o passado e viver só o presente?"; "Não dá pra passar por cima dos meus sentimentos"; "Dói imaginar que não foi comigo". Ouço e sinto que as histórias se confundem e todo mundo está nos fundos de um estacionamento escutando a mesma música eletrizante, o mesmo solo de guitarra arranhando delicadamente os ouvidos cansados. Enquanto sinto, alguém profetiza: "Não quero que dependam de mim." Ela acha que deu espaço demais. "Se isso aconteceu, só foi porque deixei que acontecesse", conclui com a voz serena, madura, sem delongas e chiliques. Quase epifânica. "Não há precisão alguma. Como estou aprendendo a ser paciente! Dá vontade de falar 'escuta, meu querido, vamos organizar essa merda e avisar direito como é que vai ser?'", expressa outra, por e-mail. "O mais engraçado: recebi a Vida Simples ontem e adivinha a capa? Paciência!". É engraçado como às vezes as coisas fazem sentido quando a gente menos espera. Aconteceu depois de uma tarde em que o coração não queria aquietar. A lua, os prédios, as luzes todas acesas, o relógio marcando catorze graus. Atravessava o clube apressada e parei, um sobressalto. Que noite linda. Atada a um desses pequenos amores de que tanto fala Paulo Mendes Campos, entendi. A noite está linda ― e isto basta.
Para minhas amigas, guerreiras. E porque, sem elas, não há
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
A sorte dela
Hoje acordei cedo para vê-la passar. No frio, os lenços contornando o pescoço fino e comprido me fazem inveja. A bochecha e o nariz corados a deixam mais bonita! Beleza diferente a dela. Morena, nariz grande, delicado e gracioso por sua espessura, fina. E ela usa uma jaqueta jeans e calça de veludo. Tão Básicos. Nunca falei com ela, mas ouço a sua voz quando reclama alto por ter perdido o ônibus. Pequena e brava. E talvez doce. Ela prende o cabelo da mesma forma todos os dias. Será porque não gosta dos cabelos castanhos? Ou porque tem medo da mudança? O cheiro dela, eu também conheço. É um cheiro de banho. Percebi que ela não se perfuma. O perfume gruda na pele dela quando se hidrata. Há muito andava com a unha por fazer, assim como as sobrancelhas grossa, que nunca mexe. Mas algo anda fazendo com que ela pinte as unhas de vermelho toda a semana. Será que vem despertando a mulher? O que mais me intriga porém, são os olhos. Pieguice, talvez. Mas os dela são castanhos, não claros como mel e nem escuros, quase jaboticabas. É meio-termo. A beleza, porém, vem é do rio que se instalou ali. Rio que nunca seca e é constante em seu olhar. Não entendo como moça assim pode deixar, todos os dias, o seu olhar marejar. E ela deixa. Ela deve carregar algo grande no peito, que pesa, que dói e faz do olho dela, mar. Mas haveria beleza e força se ali se abrigasse um deserto? Seguindo-a, sem perceber, por um longo caminho, ouvi o conselho dado pela cigana da rua que, toda semana, insite em gritar sua sorte, mesmo que ela aperte o passo para não ouvir: "Ei, menina dos olhos d'água, a solução é ser mais gentil com você mesma!" E acho que foi assim que conheci um pouco mais dela. Pela voz da cigana que em uma frase, decifrou o segredo daquela que, por toda uma vida, venho mirando: alma-gêmea.
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