segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Mudando

Um dia acordamos e nossos cabelos estavam cor-de-rosa. Nossas unhas estavam comidas e usávamos uma meia de cada cor. Nossa cama não ficava mais embaixo da janela, nem a porta tinha a mesma fechadura. Um dia acordamos e o vizinho ouvia rock. Os sinos da igreja não tocavam mais e o vendedor de cocada oferecia agora tapioca. Um dia acordamos e o "bom dia" se trasformou em "Ul-tra-gaaaaaaaaaaaaaaaaaaz". Os pratos se empilhavam na pia e o mensageiro dos ventos, com o vento, fazia bossa-nova.

Um dia acordamos e vimos um mundo pela janela. E os nossos corações, de tão vagabundos, guardaram esse mundo é dentro da gente.


Bem-vindos ao novo mundo das Meninas de lá.


PS: como um segredo, soprado em seu ouvido, peço desculpas menina de lá, por um dia de amiga que virou bagunça.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Passeio


O cara estava lá e eu nem para agradecê-lo por seus versos simples e divinos, como estes de Prezado Cidadão: "Colabore com a Lei. Colabore com a Light. Mantenha luz própria". Chacal. Ele estava no aeroporto de Confins, no município de Confins, onde no mês de março resolvi passar a noite, convencida de que em Confins existiria ao menos alguns hotéis de beira de estrada. Caidaços, vai. Nada. Coloquei uma amiga na maior roubada, só existia uma pensão naquele lugar e estava ocupada por jogadores de futebol mirins. O fim que se deu foi que os moleques, muito gentis, acabaram cedendo um quarto pra gente, e dormimos as duas em uma cama rodeada por chuteiras, meiões e otras cositas más. A barriga doendo de tanto rir. Tiramos fotos com os garotos e pagamos 10 reais pelo quarto pra mocinha que tinha sugerido que ficássemos em um hotel-fazenda perto dali, 150 paus a diária. Vamos dormir na praça, Vivi? "Pirou?". Mas os garotos foram legais e deixaram a gente ficar com o quarto deles. "Meu nome é Sérgio e eu sou de Maceió, jogo no time tal. E esse é o Roberto, ele é de Belo Horizonte mesmo. Tira uma foto com a gente?".

Voltei pra Minas, Minas querida, Minas das ruas tortuosas, dos ipês amarelos, das namoradeiras na janela, das montanhas. "Olha aquela ali! Não parece o rosto de uma bruxa?". A lembrança que eu tinha de Ouro Preto era de apenas uma rua, escura e cheia de artesanatos, pessoas munidas de sacolas. A Pó usando uma faixa colorida, um instrumento que fizemos em uma oficina e até hoje ocupa a sala da minha casa.

Dessa vez, um rapaz muito simpático tirou um retrato perto da igreja de Aleijadinho enquanto o moço observava. Minutos depois, o moço me cutucou: "Que sorte, hein? O rapaz sabia mesmo tirar foto. Muita sorte". Deu tempo para comer torresmo ouvindo Fatboy Slim. O garçom ouropretano era simpático, risonho, parecia que a qualquer momento desataria a falar bem da cidade. Já reparei: tem aqueles mineiros que falam rindo. E com essa leveza de quem não diferencia fala de riso contam com naturalidade a desconhecidos que um ex-namorado da irmã dizia que, nos almoços familiares, as mulheres acabariam inevitavelmente falando sobre cabelos.

De manhã, em volta do hotel nuvens e mais nuvens. O tempo faz que não vai abrir, mas abre. E depois fecha, chove, o sol nasce ligeiro e some ligeiro também. Torço para fazer frio, mas está quente. Uma jovem bonita talvez sinta pela primeira vez em muito tempo o calor enrubecescendo-lhe as bochechas.

Deu pra perceber que certas coisas mudam: um boteco bacanudo virou um bar comum, com música sertaneja e simpáticos moradores (e um casal de franceses, tão à vontade como se estivesse sentado em frente ao antigo Café Le Procope, em Paris). As coisas mudam e continuam perfeitas.

O mundo, Adélia, deve estar mesmo certo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O jardim de Agda


"Meu nome não é Agda, é Raimunda", ela diz. Pequenina, magrinha, sorriso fácil. "Minha mãe devia estar com raiva quando me registrou", acrescenta, como se já tivesse falado aquilo antes uma porção de vezes. Agda é pernambucana de uma cidade chamada Flores. Onde é? "Bem no sertão de Pernambuco". Trabalhou como metalúrgica e copeira antes de vender cachorro quente. Acomoda a salsicha no pão, temperando-a com pimenta, cebola "e outras coisas". Adora inventar moda e, normalmente, avisa, suas criações fazem sucesso no bairro por onde circula. "Não tem graça vender o que todo mundo vende". Pergunto pra Agda o que é mais importante quando se faz cachorro quente, esperando que ela responda o que já afirmara enquanto observava a salsicha na panela: carinho, amor. "Fazer as coisas com carinho, amor, cuidado mesmo, sabe? Gostar do que faz". Ela disse. "Tem gente que fica meio assim quando alguém pede pra fazer algo diferente, fica preocupado. Eu, não, eu penso 'que bom, é minha chance de aprender a fazer um tempero novo'. A gente precisa ter bom humor". Ela tem de ir. "Esqueci de te falar que sempre trago as cebolas cortadas porque tenho um problema com cebolas. Elas sempre me emocionam". Agda não deve ganhar um baita salário. Às vezes, provavelmente sente vontade de abrir a porta da rua e sair. No Natal, enquanto recheia dezenas de sanduíches para desconhecidos, talvez pense em uma tia-avó que ainda hoje vive em Flores e, mesmo sem querer, sinta o cheiro da massa do acarajé ficando pronta. Mas Agda tem o maior tesão no que faz. Isso me dá o maior tesão de continuar.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Amarela de portas brancas

Nos meus sonhos, imaginava uma casinha amarela com varanda e quintal. Sonhava com cachorros correndo pela rua e voltando para tomar água e dormir no tapete em frente à porta. Sonhava também com pimenteiras na janela e uma mesa enorme de madeira para se passar horas e horas falando besteira na cozinha, enquanto se toma a última garrafa de vinho em copos de requeijão (Porque não teríamos ainda taças de vinho, pois o dinheiro estava sendo contado para comprarmos uma panela de pressão, sem mesmo saber o que faríamos direito com uma panela de pressão). Sonhava com um chão de madeira em que pudesse me sentar quando o calor fosse tanto que nem se suportaria um sofá com almofadas. Sonhava com paredes brancas, com uma amarelinha no meio da rua, com um banheiro com banheira. Sonhava com o silêncio ao abrir a porta depois de um dia de trabalho e sonhava com o barulho da porta se abrindo enquanto eu lia no sofá. Sonhava com o susto que levaria ao sair do banho de toalha e simplesmente encontrá-lo no quarto dobrando a malha quentinha que usara no caminho até em casa. Sonhava com o dia que chegaria em casa correndo após a dureza de uma segunda faculdade e o cheirinho do jantar chegaria até o portão. Sonhava com as broncas que ele me daria por não saber organizar meus papéis, minhas roupas, meus horários, minhas contas. Sonhava com as broncas que daria por ele nunca chegar no horário, por nunca esquecer uma conta, por nunca desistir de me fazer cafunés (por que sim, eu odeio cafunés, mas odeio mais quando ele não insiste em fazê-los). Sonhava com a felicidade em forma de pote de sorvete com sucrilhos e duas colheres e uma fileira de yakults na porta da geladeira, seguida pela pergunta previsível, mas adorada: "Mais um, abóra?"

Meus olhos alagam e meu peito estufa quando penso que os sonhos não são mais só sonhos. Que uma casinha amarela com varanda e portas brancas me espera pra dormir.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Comme des Garçons


porque ele é um garoto,
e seus olhos são de repente verdes
como nunca vi.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Querida Pedra Bela


Lá, depois de uma frase, se diz "jallalla". Significa "assim seja". Senta-se em roda em cima de uma velha esteira. Todo mundo se escuta, se olha com ternura, ao menos se esforça para esquecer os julgamentos, todo e qualquer tipo de mesquinharia. Os macacos brincam nas árvores. Um beija-flor amarelo pára ao lado da menina doce dos cachos de ouro. O rio corre solto, desce macio enquanto numa noite chuvosa de outubro o garoto de três anos e dez meses pergunta à mãe posso mergulhar? e ela diz, num ímpeto libertário: sim. Ímpeto do qual depois se lembraria com a mesma chuva nos olhos, o filho no colo de ponta-cabeça, com os pés em seus ombros, inquieto. Eu nunca cheguei perto daquele rio. Gosto de imaginar que ele existe e isto basta. Tem um rio aqui que eu sei! Dessa vez, havia margaridas no sítio Itaporã, tão lindas que fui me sentar perto delas. Quase dormi naquela subida, agachada, ouvindo os passos da moça entusiasmada com uma flor japonesa. A moça tinha ido buscar cebolinha para dar gosto à sopa que todos tomariam mais tarde. A jovem do anel verde dormia, a mulher que queria trocar de nome se abria e ele atendia o telefone com a voz rouca, preguiçosa, deitado no sofá. "Estou aqui trocando de canais", me disse, e eu senti o vento feiticeiro de Piva tocando o navio pirata da alma, a quilômetros de alegria. Eu contei pra menininha, no correr das horas, o segredo que a bailarina da caixa de música sussurrou pra mim há um tempo já. "Vamos conhecer o rio?", ela perguntou. Eu menti que a pressa já atravessava a ponte atrás de mim, e contei que se ela quisesse podia abrir uma bala daquelas 7Belo, jogar fora o papel e oferecê-la à cachoeira próxima ao rio. A menina olhou com seriedade, e eu acrescentei: "Você não viu que ontem oferecemos chocolates ao fogo? A gente tem que cuidar da natureza". Gosto de me ouvir e faz ainda mais sentido ouvir o que os outros têm a dizer. Sentir o rosto esquentar na fogueira, deixar o corpo rodopiar, encher o cabelo de folhas e o vestido branco de lama. É bonito demais, é como tudo deveria ser - e é, se a gente quiser que seja. Por um fim de semana ou a vida toda. Mais ou menos assim, como escreveu o ex-Mutante Arnaldo Baptista: "Às vezes estou andando ao lado de um amigo em plena Avenida Nossa Senhora de Copacabana ou qualquer outra grande avenida, com a fortíssima materialidade das lojas me levando a só acreditar no que se vê, e apesar disso, sinto algo especial". Jallalla.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

o eterno deus mu-dança



Desenho de Tulipa Ruiz

Nunca faz o mesmo caminho. Cada dia decide de maneira diferente o seu destino. Por vezes, sente uma sensação esquisita: "acho que já pensei isso antes." Mas a repetição não é o suficiente para se convencer.

Tem estado solitária. Reclama, acha que tem algo errado. Mas, no fundo, sabe que escolheu, preferiu que as coisas fossem dessa maneira.

Às vezes sente-se egoísta. Por dias acorda carente, angustiada. Depois que passa, vira para o outro lado e volta a dormir.

Assobia leve pela rua, canta alto ouvindo música, faz caras e bocas, dança sozinha no parque. Parece não se importar mais como antes.

De repente, se entristece. Trovoa tanto, que faz dúvida. Como perdeu tão rapidamente a leveza do assobio do fim da tarde?

O que será que a aflige?

Parece ser alguém que sempre soube onde moravam os problemas. Talvez seja esse o problema.

Me contou que hoje já não diferencia problema, de solução.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Dengo e Apelo

Há tempos estou para escrever esse texto. Sobre algo bom, sobre uma beleza, uma música, uma poesia, uma canção. O compositor é um velho conhecido da vila e de todo o resto, Martinho. Confesso nunca ter prestado atenção na poesia do presidente de honra que tem a escola do coração em seu nome, que compôs dois dos cinco campeões, entre tantos outros enredos da carioca Unidos de Vila Isabel. Que compôs sambas eternos que estão na boca do povo. E na minha? a Disritmia das primeiras vezes.

Fui apresentada à poesia por Ney Matogrosso e Pedro Luis. Não tenho muitas explicações para dizer que ultimamente me aparece todos os dias, na cabeça, no peito.Talvez sejam os ventos que causam arrepios nos finais de tarde, anunciando as novas que se aproximam. E a história se deu, simples assim, como tantas outras no mundo:

Disritmia
Martinho da Vila

Eu quero me esconder debaixo
dessa sua saia pra fugir do mundo.
Pretendo também me embrenhar
no emaranhado desses seus cabelos
Preciso transfundir seu sangue
pro meu coração que é tão vagabundo...
Me deixa te trazer num dengo
pra num cafuné fazer os meus apelos

Eu quero ser exorcizado
pela água benta desse olhar infindo
Que bom ser fotografado,
mas pelas retinas desses olhos lindos
Me deixa hipnotizado
pra acabar de vez com essa disritmia
Vem logo vem curar seu nego
que chegou de porre lá da boêmia