Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Caramelo

O cheirinho de açúcar queimado tornava quente a sala escura. O fervilhar da panela foi a trilha sonora da segunda-feira fria. E o caramelo derreteu as cordas que apertavam o coração. Digo, uma parte delas...Caramelo foi, sem dúvida, a surpresa mais doce em uma semana de inspiração vermelha, em que bexigas em formato de coração decoravam as vitrines cafonas da capital gelada.

No líbano, os desejos e ansiedades delas são iguais aos nossos e, em cada cena, eu me lembrava da gente. Das vezes que nos encontramos para chorar, mas tudo sempre acabava em risada. Da amizade que começou com corações partidos, das noites dançantes cuja lembrança mais forte é uma delas sentada no lixo. Lembrei das viagens, que íam de café da manhã em frente ao mar e cinco sobremesas a banho gelado e miojo pré-samba na areia. Lembrei dos sonhos e dos planos frustrados, das risadas intermináveis e dos segredos bem-guardados.

Enfim, Caramelo é um delicioso filme sobre mulheres, suas belezas, suas dores, inseguraças e amores....histórias verdadeiras e comuns nos quatro cantos do mundo. E como não se apaixonar? Se apaixonar por elas, mulheres, por nós mesmas, por aquela que atravessa rua com saia rodada ou por aquela que chora escondida, trancada no banheiro do escritório. Como não se apaixonar até por aquela que, com o coração encolhido, finge discar errado como se fosse possível esconder de mim que o olhar pernambucano anda carregado de tristeza.

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Ponto


"O mundo é feito de pontos. São muitos se forem pontos de vista. Poucos se forem pontos estratégicos. Muito úmidos se forem pontos de chuva. O mais gostoso é ponto de encontro, mas às vezes desencontra. Ou pontos de luz, um homem e uma mulher nus. Todos são pontos. O caminho entre dois uma reta. Uma linha. Um caminho que caminha sozinho. Fim da linha. Ou do fio. Fio da meada é na conversa. Conversas são feitas de pontos de enfoque. O palco também. Amores são pontos em comum. Os pontos são um."

Estrela Ruiz Leminski

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Catarina


Catarina tem olhos pequenos como as sementinhas de uma romã. É sardenta e fala coisas especialmente engraçadas quando ditas por uma garota de 8 anos. Gosta do seu mundo todo em preto e branco, embora se sinta feliz quando desenha castelos gigantes e coloridos com sua caixa de giz de cera. A pontinha de seu nariz é levemente avermelhada, dando a impressão de que a menina está sempre gripada. Talvez esse seja o seu charme, um tanto torto, mas um lindo charme.

Seu doce favorito é um doce no plural. São as famosas bolinhas feitas à base de leite condensado e chocolate, cobertas com granulado. Quase todas as tardes, ao final da aula de natação, a mocinha come alguns exemplares da sobremesa. E isso, nos vestiários, não passou sem ganhar gracejos vindos de seus colegas das piscinas, que apelidaram-na de Maria Brigadeiro. Ela não apreciou muito a alcunha, no entanto, também não reclamou.

Fica encantada quando senta na janela do ônibus e consegue avistar tudo o que se passa pelas ruas: pernas apressadas, pessoas sentadas na varanda, conversas entrecortadas, vitrines que atravessam rapidamente seu olhar, crianças brincando. Aliás, ela também é uma criança que costuma passar horas na rua se divertindo com os vizinhos. É esconde-esconde, pega-pega, barra-bandeira e mais um monte de passatempos com hífens.

Apesar da pouca idade, Catarina adora repetir a frase que mais sai da boca de sua mãe: "viver é muito perigoso." Mas talvez ela ainda não saiba o que um tal de Guimarães Rosa quis dizer com isso. Na verdade, nem Catarina nem eu.

Terça-feira, 10 de Março de 2009

Ah, a poesia!

Na deliciosa Casa de Beatriz, ela, que não chama Beatriz, recorreu sabiamente à poesia de Drummond quando o coraçao desistiu de procurar as palavras que insistiam em não aparecer. Eu, que adoro aquela casa, faço o mesmo e entrego a Bandeira a tarefa de traduzir em poesia as palavras perdidas daquele meu vagabundo coração.

O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Minhas meninas


Faz tempo que não vejo minhas meninas, mas mato a saudade com pequenas doses diárias de boas lembranças. Ontem mesmo, quando finalmente fui ao Tampopo e a Claudia me disse que a cliente-fundadora, a responsável pela proliferação de (ex) puquianas era a Georgia lembrei de uma ocasião em que ela apareceu toda linda com os cachos soltos e brilhantes, causando alvoroço. Lembrei como adoro a sua risada: mesmo quando é tímida, é grande e solta. Parece que a qualquer momento ela vai ter um ataque de riso, o que me dá ainda mais vontade de rir. Todos os dias eu imagino como deve estar a Jo em sua casinha amarela tão cheia de amor. Será que o emprego novo é bacana? Será que ela consegue enganar o editor e, cheia de graça, botar uma raspa de poesia em tudo que escreve? Penso na Jé. Ela, com sua incrível habilidade de ouvir, sempre arruma um tempo para de alguma forma me abraçar e dizer "ei, Benito, estou aqui". Tenho saudade das nossas tardes preguiçosas na Benê, das cervejas de domingo no velho Arpege. Espio o blog da Aninha e fico feliz da vida vendo que tenha visitado a cidade que tanto a enche de alegria. Ela me delicia com suas aventuras cinematográficas. Tudo está impecavelmente caprichado, muito bonito. Todas essas sensações e lembranças carinhosas viram um filme na minha cabeça, daqueles que a gente não sabe explicar por quê gosta tanto, nem interessa quem fez ou como vai terminar, daqueles que amaciam, esquentam e viram um post açucarado, doce e feliz, e a vontade é a de ilustrá-lo com nada mais nada menos do que um rechonchudo coração.

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

A você com carinho

uma mensagenzinha carinhosa a todos que nos acompanham por aqui.

Querida M.

Estou ausente. eu sei. mas não é proposital. juro. quando comecei tudo isso prometi nunca desaparecer. mas menti. queria estar ao seu lado todos os dias. mas não pude. falhei. deixei o trabalho a casa a dor o dia-a-dia passarem na sua frente. nao consegui traduzir tudo isso de modo que entendesse. do modo que sei. escrevendo. queria ter te contado sobre o dia divertidíssimo que passei em um parque de diversões após 12 anos. queria ter te contado sobre a conversa fervorosa que ouvi de enxerida sobre Woody Allen. queria ter te contado sobre como chorei nos últimos dias porque descobri que a vida nao é sempre cor-de-rosa. queria ter te contato sobre quando caí de bumbum da escada e ela, em desepero, disse que me amava, com uma pomada na mao. queria ter te contado sobre a minha relação com a minha mãe, a mulher mais fantástica que conheço. queria ter te contado sobre um bêbado quarando ao sol. queria ter te contado tantas coisas. mas não consegui. não dei a atençao que você merece. mas hoje estou aqui pra dizer como você é importante pra mim. o quanto você me motiva. o quanto me faz sentir valorizada e capaz. queria te dizer que descobri que também é por você que escrevo. para que você me acompanhe. me questione. me conheça. me reprove. me ajude. me entenda. obrigada M. Não prometo, mas quero muito voltar todos os dias pra você.

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Infinito particular


Hoje eu quero a música da Virgínia Rodrigues que toca agora na linda casa terracota quente e florida da amiga onde amorosamente fui acolhida esses dias.

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Circense

Passaram dias no escuro
Quando, repentinamente, a vela acendeu
E a moça fugiu

Correu e correu até que se cansou
Bebeu água de coco
E então caiu

Acordou embalada
Por um solavanco
E depois sorriu