quinta-feira, 24 de julho de 2008

Vincent


Vincent é um garotinho excêntrico. Gosta de andar escondido dentro de uma caixa de papelão ou atrás de lentes escuras. É do tipo que não dá confiança a qualquer pessoa. Fala pouco. Usa protetor solar todos os dias e é viciado em cereais coloridos. Tem os cabelos pretos, que dificilmente estão penteados. Seus olhos são igualmente escuros e o rosto comprido faz as bochechas rosadas ficarem pequeninas.

A mãe de Vincent vive o mandando brincar na rua com as outras crianças, mas ele gosta é de inventar seu próprio mundo, sozinho. Faz máquinas, balões, desenhos, bandeiras, peões, mesmo que seja só no pensamento. Vive atrás de livros. Os de Edgar Allan Poe são seus favoritos. Acho que comecei a gostar de “O Corvo” com ele:

“Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
‘Uma visita’, eu me disse, está batendo a meus umbrais...”.

Na escola, gosta de se sentar no meio da sala. Troca uma piada aqui, outra lá. Mas ouve como poucos o que a professora de história tem a dizer. Observa tudo ao seu redor, parece até que tem radares debaixo do boné azul que usa nos dias mais frios. Aquele moletom surrado de listras é o seu predileto. Para mim, ele tem uma estranheza que, por si só e paradoxalmente, é seu maior encanto.

Às vezes penso que Vincent é um menino triste. Logo mudo de idéia ao vê-lo assobiar. Apesar de não se juntar muito com os outros garotos de sua idade, ele não dispensa o futebol às segundas-feiras durante o recreio.

Seu quarto parece um refúgio intocável, cheio de segredos e uma bagunça sem tamanho. Certa noite percebi que, como quase todas as crianças, ele tinha medo do escuro! Dava pulos a cada barulho vindo da janela. Já com seu pijama de flanela, deitado e quase dormindo, eu improvisei, nos versos de um poema, uma canção:

“...É só isto, e nada mais”, Vincent, "É o vento, e nada mais. Noite, noite e nada mais."


Ainda não sei muito bem onde foi que o conheci. Talvez em “Martian Child”. Ou será que foi em “Vincent”, de Tim Burton? Pode ter sido, ainda, em “Horton e o Mundo dos Quem!”. Também o encontrei em Marcus, de “Um Grande Garoto”. E o reconheci nos meus três primos quando pequenos.

10 comentários:

Beto disse...

Finalmente!

Estava sentindo falta dessas criações e descrições. Tim Burton até arrumaria o cabelo de orgulho de seu Vincent!

bejo

Nana disse...

Linda! Que bom que está de volta!

Rafael disse...

oi Xuxa. curioso como algumas pessoas conseguem agregar no caráter introspectivo uma dimensão muito maior do que fica exposto. é como se o "voltar a si" fosse uma maneira própria de permear os outros. como grandes escritores tímidos ainda não publicados. boa sorte com teus textos.
beijo

Rafael (Anjo)

sushi disse...

que lindo, ana! sou fã de tim burton! vc já parou pra pensar que talvez o nome vincent carregue o fardo de uma vida de pequenas incompreensões e tesouros? um cara que eu sou fã tb é van gogh. que era vincent tb. que tb teve uma vida meio complicadinha. já viu esse video? http://www.youtube.com/watch?v=Gi_P8XwrSCU

um beijo!

Georgia disse...

querida amiga ana,
seu post me despertou vários pensamentos e sensações.
primeiro de tudo, confirmei o que já sabia: vc é uma das pessoas mais sensíveis e inteligentes que eu conheço. e ai vem a segunda coisa: que saudades que tenho das nossas conversas, ainda que elas tenham sido poucas. se vc soubesse o quanto aprendo com vc! a alma gigante que existe por trás dos aparentemente frágeis olhos azuis!
por último, me fez esquecer um pouco da vida real e lembrar pq eu gosto tanto da literatura... pq é tão chato ficar só vivendo a vida sem imaginar e sonhar e inventar!!!
obrigada!
beijos grandes

Anônimo disse...

esse passeio introspectivo faz de você uma participante da caravana dos deslumbrados com a incógnita da vida e das suas circunstâncias.
parabéns!
beijos paternos

Daniela Piva disse...

Reconheci em mim um Vincent...
Vocês escrevem muito bem, meninas!
Beijos!!!

Anônimo disse...

Vincent é um pouco de mim, de você, de Gabriel, de Francisco, de Lucas e de muitos outros...
É parte do que está escondido em nós e muitas vezes não enxergamos.
Alegre e triste, tímido e sabido!!!
Parabéns maninha.

Frau Rosi.. disse...

Acho que tenho muito de Vicent.Linda descrição..impossível não vincular com Tim Burton, mas tenho certeza de que há muitos Vivent"s por aí...

Abraços...

Vince Cortez disse...

Eis aqui um Vincent de alma e registro, diagnosticado desde o 1o tapinha na bunda recebido para dizer à mamãe que sim, está tudo bem.

Beijos e beliscões com muito carinho às meninas de lá que moram exatamente aqui, dentro da caixa de brinquedos que ganhei de tio Ernesto - aquele das frases e camisetas.