
O cara estava lá e eu nem para agradecê-lo por seus versos simples e divinos, como estes de
Prezado Cidadão: "Colabore com a Lei. Colabore com a Light. Mantenha luz própria". Chacal. Ele estava no aeroporto de Confins, no município de Confins, onde no mês de março resolvi passar a noite, convencida de que em Confins existiria ao menos alguns hotéis de beira de estrada. Caidaços, vai. Nada. Coloquei uma amiga na maior roubada, só existia uma pensão naquele lugar e estava ocupada por jogadores de futebol mirins. O fim que se deu foi que os moleques, muito gentis, acabaram cedendo um quarto pra gente, e dormimos as duas em uma cama rodeada por chuteiras, meiões e otras cositas más. A barriga doendo de tanto rir. Tiramos fotos com os garotos e pagamos 10 reais pelo quarto pra mocinha que tinha sugerido que ficássemos em um hotel-fazenda perto dali, 150 paus a diária. Vamos dormir na praça, Vivi? "Pirou?". Mas os garotos foram legais e deixaram a gente ficar com o quarto deles. "Meu nome é Sérgio e eu sou de Maceió, jogo no time tal. E esse é o Roberto, ele é de Belo Horizonte mesmo. Tira uma foto com a gente?".
Voltei pra Minas, Minas querida, Minas das ruas tortuosas, dos ipês amarelos, das namoradeiras na janela, das montanhas. "Olha aquela ali! Não parece o rosto de uma bruxa?". A lembrança que eu tinha de Ouro Preto era de apenas uma rua, escura e cheia de artesanatos, pessoas munidas de sacolas. A Pó usando uma faixa colorida, um instrumento que fizemos em uma oficina e até hoje ocupa a sala da minha casa.
Dessa vez, um rapaz muito simpático tirou um retrato perto da igreja de Aleijadinho enquanto o moço observava. Minutos depois, o moço me cutucou: "Que sorte, hein? O rapaz sabia mesmo tirar foto. Muita sorte". Deu tempo para comer torresmo ouvindo Fatboy Slim. O garçom ouropretano era simpático, risonho, parecia que a qualquer momento desataria a falar bem da cidade. Já reparei: tem aqueles mineiros que falam rindo. E com essa leveza de quem não diferencia fala de riso contam com naturalidade a desconhecidos que um ex-namorado da irmã dizia que, nos almoços familiares, as mulheres acabariam inevitavelmente falando sobre cabelos.
De manhã, em volta do hotel nuvens e mais nuvens. O tempo faz que não vai abrir, mas abre. E depois fecha, chove, o sol nasce ligeiro e some ligeiro também. Torço para fazer frio, mas está quente. Uma jovem bonita talvez sinta pela primeira vez em muito tempo o calor enrubecescendo-lhe as bochechas.
Deu pra perceber que certas coisas mudam: um boteco bacanudo virou um bar comum, com música sertaneja e simpáticos moradores (e um casal de franceses, tão à vontade como se estivesse sentado em frente ao antigo Café Le Procope, em Paris). As coisas mudam e continuam perfeitas.
O mundo, Adélia, deve estar mesmo certo.