segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Pernambucando


O Recife é grande, quente, cheio de vento e está em obras. Quente. E possivelmente a cidade mais poluída de cartazes de campanha eleitoral. Isso ela descobriu lá. Também descobriu que, no Recife, quando você tem cara de que não é do Recife e resolve colocar sua mala (por algumas horas) no locker do Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes – Gilberto Freyre, o guardador vai ficar com receio de te deixar pegar um ônibus na esquina até a praia de Boa Viagem. "Vou pegar meu carro que está aqui no estacionamento e te levo. É pertinho. Bora lá". Bora lá! E depois, vai te convidar para uma água de coco e você vai pensar: "Vou pagar, pra agradecer a carona". Mas o sujeito é mais veloz e tira as moedinhas do bolso primeiro. E depois te convida para um lanche na padaria-coca-cola (inevitável imaginar uma propaganda com aquele urso polar. poderiam colocá-lo lá na frente, segurando uma garrafinha de vidro. ao fundo, a placa: 'cuidado! tubarão'). Você acha que padaria já é demais da conta. Carona, carona. Água de coco, água de coco. Lanchinho, não, pô! Despista, diz que não está com fome, torcendo para o estômago não roncar e ele te conduzir à padaria com mais um "bora lá".

Naquela manhã, a mocinha caminhou pelas ruas próximas à Avenida Boa Viagem. Parou para comer um doce de batata doce pelando, enrolado em papel sulfite, que devorou com voracidade depois de ter acabado com um pacote de pipoca doce (murcha) sentada num banco da praia. Ventava muito e ela tirou seu sapato-joaninha e quis caminhar até o mar, molhar os pés de água salgada. Sempre pensou que o mar fosse mais senhor que sereia, com suas rugas e fúrias e mania de querer ser infinito. O mar, como o amor, torna tudo infinito. Movimenta, balança, espalha, cura. Toca em frente, como diz a canção de Almir Sater que ela ouviria dias depois, em uma manhã chuvosinha, com a cabeça encostada no ombro dele e o coração tranqüilo.

Mas o Recife não tem só mar, cartazes de campanha eleitoral, doce de batata doce e tubarões. Tem a melhor cabeleireira do país, que encontrou caminhando placidamente pela rua dos bacanas da cidade.

"Oi, tudo bom? Você sabe onde eu encontro um cabeleireiro por aqui? Me disseram que tem um nessa rua..."
"Oxe, eu sou cabeleireira. Só que meu salão fica na Fernandes Vieira"

Ela pensa que a Fernandes Vieira deve ser logo ali, mas a sra. Potter pára em um ponto de ônibus e acena para um que vem vindo. Vou ou não vou? Vai. O ônibus atravessa umas pontes, dezenas de meninotas embarcam e desembarcam, com uniforme do colégio e sombra nos olhos e, quase meia hora depois, a sra. Potter diz:

"É aqui"

Estão as duas em uma sala de um consultório de um doutor, já estranhamente íntimas.

"Mas tu é doida, não? Acreditar assim numa pessoa qualquer da rua"
"E você também, mulher, de me trazer aqui!"
"Eu olhei e pensei: 'É tão novinha, não pode fazer mal'"
"Escuta, aqui em Recife as garotas vão à escola maquiadas? Encontrei várias super arrumadas no ônibus"
"Na sua cidade não é assim, não? Outra coisa, vocês não usam essa máquina? Olhe, eu não sou de falar mal de outros lugares, mas, posso dizer? Acho que você precisa trocar de salão"

A sra. Potter tem razão. Nunca alguém foi tão bem tratado em um cabeleireiro, impecavelmente bem tratado.

Já são 14hs. A mulher almoça um Mc Lanche Feliz e a mocinha, já no clima do Recife, guarda a calça e sai de vestido e rabo-de-cavalo bagunçado, em busca do ônibus que vai até o aeroporto. Volta para buscar a bagagem de São Paulo. E um presente vindo lá do norte.

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