sábado, 20 de setembro de 2008

Grandes



Ela se sente vazia, me diz. Diz que multidão alguma consegue preencher o vazio e desatar o nó da garganta. Caminha pelas ruas do centro, pinta telas no banheiro, improvisa gestos sedutores, repica o cabelo e faz, do lagarto, poesia. Mas falta algo, ela me diz, ao telefone. Eu peço calma, sugiro que esse período enfadonho vai fazer com que entenda sua arte, ajudá-la a pegar sua força, formar a mulher. Não fique pensando muito, matutando, racionalizando. Ela diz que vai tentar, a voz cheia daquele alívio que deixa momentaneamente tudo morno e macio. Geralmente, pouco tempo depois, passa. É como voltar de um final de semana em Pedra Bela. Passa. Mas abre uma fresta, refresca. Ela, não a mesma, está aflita. "Não aparece há dias". Fuma meu cigarro e pergunta como deve agir, sem esperar resposta. Sabe que o que está acontecendo é resultado da dorzinha apertada e miúda da semana passada. Só que de repente não quer saber, o medo faz com que não veja. O medo sempre embaça a visão, é uma miopia que não se conserta usando óculos. Penso em recomendar jazz e uísque. Eu queria jazz e uísque aquele dia. Ao invés disso fomos, juntas, durante um instante, para uma ilha paradisíaca. "Por quê não consigo esquecer o passado e viver só o presente?"; "Não dá pra passar por cima dos meus sentimentos"; "Dói imaginar que não foi comigo". Ouço e sinto que as histórias se confundem e todo mundo está nos fundos de um estacionamento escutando a mesma música eletrizante, o mesmo solo de guitarra arranhando delicadamente os ouvidos cansados. Enquanto sinto, alguém profetiza: "Não quero que dependam de mim." Ela acha que deu espaço demais. "Se isso aconteceu, só foi porque deixei que acontecesse", conclui com a voz serena, madura, sem delongas e chiliques. Quase epifânica. "Não há precisão alguma. Como estou aprendendo a ser paciente! Dá vontade de falar 'escuta, meu querido, vamos organizar essa merda e avisar direito como é que vai ser?'", expressa outra, por e-mail. "O mais engraçado: recebi a Vida Simples ontem e adivinha a capa? Paciência!". É engraçado como às vezes as coisas fazem sentido quando a gente menos espera. Aconteceu depois de uma tarde em que o coração não queria aquietar. A lua, os prédios, as luzes todas acesas, o relógio marcando catorze graus. Atravessava o clube apressada e parei, um sobressalto. Que noite linda. Atada a um desses pequenos amores de que tanto fala Paulo Mendes Campos, entendi. A noite está linda ― e isto basta.

Para minhas amigas, guerreiras. E porque, sem elas, não há

5 comentários:

Viviane disse...

Amiga, que post delicioso! E que sincronia... estou triste, atrapalhada (daquele jeito que fico quando estou cabisbaixa), com medo de perder um amor... estou num típico "Se isso aconteceu, só foi porque deixei que acontecesse". Agora aguardo o tempo passar... deixo (com dificuldades) ele decidir a minha lição (ou a famosa "conseqüência"). E então hoje seu post foi acolhedor... suas palavras deliciosas fluíram, correram pra dentro de mim e me ajudam a sustentar essa dor. Obrigada

Joana disse...

Incrível como escreve pra uma e pra todas ao mesmo tempo...Apertou aqui dentro, lindo!

Marina Morena disse...

Que lindo, Nana!
Adoro ler seus textos. Calmos, tranquilos, leves, positivos...
É bom ter um pouco de você por aqui. Escreva mais! E sempre.
Adorei este trecho: "Geralmente, pouco tempo depois, passa. É como voltar de um final de semana em Pedra Bela. Passa. Mas abre uma fresta, refresca".
Lindo demais...
Beijão!

Geó disse...

nan,
seu texto me deu saudades
saudades das conversas com chá-mate gelado ou suquinho no café do estadon, com a vista para a marginal tiête, as lágrimas que caiam, os sorrisos cumplices
saudade dos cafezinhos, cigarrinhos e da amizade que só crescia a cada dia
saudades amiga!
beijocas e parabéns pela sensibilidade a cada dia maior, pelas palavras de mulher guerreira que é

Cláudia disse...

Nana querida
Suas palavras tocam, e através delas a vida fica mais leve e bela.
te amo
Mami