domingo, 6 de abril de 2008

Carmen de Godard


Eu adoro dias nebulosos, desses bem chuvosos e cinzentos. Adoro. Adoro dormir meio descoberta de propósito, só pra sentir frio e demorar mais tempo pra levantar da cama. Adoro acordar com barulho de chuva e trovão. Adoro colocar um casaco quente, depois de ter entrado num banho quente, banho com muito sabonete. Tomar um chocolate quente numa caneca bem grande (pra fazer um charme, porque ele logo fica morno e não consigo mais beber). Passar o dia todo dentro de uma livraria, passeando por muitos lugares e tempos, passeios que, no fim, sempre terminam assim: a menina sentada num banquinho ou café, folheando Calvin e Haroldo - O Mundo é Mágico, deliciada. Nunca compro o livro, acho que para ter o gostinho de tê-lo, sem ter. E, também, é como se assim garantisse que mais dias nebulosos estão por vir. Gosto tanto de um tempo acinzentado que penso ter nascido no país errado. No planeta errado. No mundo errado. Talvez eu esteja mesmo vivendo em outro mundo, enquanto vivo nesse. Às vezes tenho a impressão de que tudo não passa de um filme que já rodou e, por algum motivo, continua rodando - e, por algum estranho motivo, as pessoas não percebem. Uma narrativa fragmentada, um filme do Godard.

O que isto significa?


Importa?

Poesia numa hora dessas?!

Sim, para colorir o acinzentado de um dia como esse.


Dias cinzas, geralmente, são acompanhados de chuva. E as àguas das chuvas me lembram os rios. Pois então, deixo aqui as cores de "O Rio", do poeta triste Manuel Bandeira:

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

No supermercado

Quando pequena Nina adorava acompanhar sua mãe no supermercado. Gostava de brincar e correr por entre as prateleiras. Também gostava de apostar corrida com sua irmã menor. Se perdiam pelas fileiras dos congelados, dos pães e dos eletrônicos. Faziam suas próprias pistas de bate-bate. Às vezes seu pai olhava bravo, mas sabia que no fundo ele achava era engraçado as duas correndo de lá pra cá, fazendo daquele lugar um parque de diversões.
Diante do mundaréu de comidas, frutas, aparelhos domésticos, corre-corre de pessoas, carrinhos, música, ela parava, somente, quando via as moças que trabalhavam sob os patins. Ficava encantada e sonhava um dia poder ir ao supermercado com rodinhas nos pés.

— Mãe, posso buscar meus patins? (Dizia impaciente)
— Não, meu bem, aqui não é lugar para você brincar.
— Mas, mãe, as moças...
— Pese as batatas pra mim, filha.

Enquanto via as atendentes deslizarem, Nina chorava, também querendo patinar pelo supermercado todo. Só mudava o rumo de seus olhares quando chegava perto da seção dos doces. Aí, a menina esquecia o mundo e tudo se transformava em barras de chocolate, balas coloridas, caramelos, bolachas, chicletes, pirulitos...queria colocar tudo dentro do carrinho. E não era só Nina e sua irmãzinha que brincavam por lá. Várias crianças corriam, pulavam, se perdiam. Ela mesma já havia se perdido no meio do labirinto de gôndolas e chegou até pensar que nunca mais encontraria sua mãe naquele mundo de pernas que passavam apressadas.

Dez anos depois, o supermercado já não era mais um parque de diversões, pelo contrário. Nina, agora moça adulta, não via mais graça em empurrar o carrinho de compras, não dava a mínima para os patins e seus olhos pouco brilhavam pelos doces. Na verdade, ela se irritava com as crianças que atrapalhavam seu percurso, com a fila para pesar as verduras e as cestinhas abandonadas no chão. Não se imaginava mais ficar horas dentro daquele lugar e nem tinha mais medo de se perder, pois já sabia caminhar sozinha.

Ainda no supermercado, Nina olhou para trás e, mesmo com sua impaciência habitual para esse tipo de ocasião, ela se lembrou de como aqueles momentos eram bons. E, agora, acha graça. Compreendeu, mais uma vez, as brincadeiras que o tempo faz com a gente.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Quatro folhinhas nascidas ao léu

Pensei, pensei muito antes de publicar esse texto. Ele está pronto, aliás, há quase um mês. Às vezes me pergunto quais os limites de um blog. Há limites e censuras quando alguém se dispõe a escrever publicamente? Bom, entre pensamentos, me disse uma menina de lá: “Publica sim, se foi escrito com carinho e respeito!” Ah, foi!!!...e, ainda, acompanhado da beleza vinda das mais recentes e mágicas descobertas.

Lentes de aumento

Cabelos de mola, com ondas que se desfazem entre os dedos. Não, não são os meus cachos de pequena! Esses, agora, são claros e, como dizem as histórias infantis, dourados. Como os da boneca, aquela de porcelana, no alto da estante. Eu, ainda tímida, confesso perder as palavras para descrever uma sensação que, de tão nova, me assusta. Mas me invadiu, de súbito, e encheu os olhos de brilho. Estendendo a mão e me chamando pelo apelido – que nome mais difícil, Djô! – sabe como acertar em cheio o gostar e o encantar. Tão pequena, mas com olhos enormes que, agora, enxergam o mundo por traz de duas lentezinhas, pequeninas como ela. Mas só por enquanto, pois já se imagina e se sonha com todo o mundo que ela verá de pertinho. Ainda me surpreendo como me apareceu assim, de surpresa, como o melhor chocolatinho guardado para depois do almoço. Ainda acho estranho como, em tão pouco tempo, o admirar e o querer-bem me pegaram de jeito, pelas mãos. Vieram ele e ela, com os mesmos olhos, estendendo as mãozinhas, grandes e pequenas, na minha direção. E como não esticar as minhas e me deixar levar?Ah, não sei se a lei que criaram por aí permite que eu me sinta assim. Mas sei que serei fora-da-lei, caso o mundo não enxergue a pureza e a beleza e o colorido com que alguém, lá de cima, pintou as flores que surgiram para beirar a minha estradinha, do agora até o pra sempre.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Coisas bizarras


Um barco estacionado no meio da Marginal Tietê
O som do vento quando se está a 90km/h na Marginal Tietê
A naturalidade com que enxergo a favela pintada na Marginal Tietê
A Marginal Tietê.
O msn não permitir que o Di seja meu amigo
Meu cd da Teresa Cristina que sumiu. É por isso, e só por isso, que eu continuo acreditando em duendes
A d. Xêra comprar fôrmas eróticas para chocolates em Cordisburgo (deusdocéu, onde?!)
A fantástica fábrica de chocolates, no estúdio do jornal
Carneiros: a melhor piada do mês
Malas que vão parar em lugares onde gostaríamos de estar
Uma borboleta laranja linda, linda, ter pousado delicadamente
nas mãos da menina brejeira
A solidão de um mergulho na piscina, de olhos abertos
O poder assustador dos compartimentos
Vício.
Notícia bizarra de hodje, by BBC:
"Finlandês é preso por roubar orelha de estátua"
A (promessa de) uma reunião inusitada das Meninas de Lá
em uma tenda.
O amor, o sorriso e a flor, que continuam se transformando depressa demais,
mas tudo bem.
O Urutau ter quase matado a tia Carlota um dia
e, hoje, não conseguir mais galopar...
O tempo
Sim, sim, o tempo
A idade
E os sinos de Belém.
As cinzas
defumadas
As pedras que alguém um dia colocou no meu terraço
(sem saber)
traçando o labirinto das formigas
que hoje desviam das cinzas
defumadas.
As cinzas que estão ali só porque, olhando o barco na Marginal Tietê, ela pensou
As coisas bizarras
e
esta lua,
este conhaque,
botam a gente comovido como o diabo.
E disse, então, só pra ela ouvir


Aumenta o volume dessa música
que eu quero escutar
com a boca

terça-feira, 25 de março de 2008

Em tempo


E, coincidentemente, em tempo de Pedras Belas.

O final do poema "Floresta Sacrílega", de Roberto Piva



a força do xamã
provém do nada
do êxtase
do Eros
tambor-gavião
estrela fiel na chama do coração
garoto vestido
de menina
dervixe da Lua

segunda-feira, 17 de março de 2008

Sem explicação

Dias corridos. Abraços apertados. Saudade recuperada. Sentimentos embaralhados. Chuva. Família reunida. Amizades refeitas. Carinho comprovado. Medo. Confusão. Novas músicas. Falta de inspiração.

Assim foi a última semana...



No meio de tudo isso, olhei para a estante do meu quarto e, quase escondido, lá estava ele, Fernando Pessoa, o poeta das mil faces. Lembrei daquela noite especial em que ganhei esse livro de uma amiga que, além de ter adivinhado o que eu precisava, me apresentou Beatriz. Em homenagem a essa amiga, à vida e, principalmente, às coisas que somente existem e não precisam ser explicadas, deixo aqui o poema “Li hoje quase duas páginas”.

"Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;

E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza."

sexta-feira, 14 de março de 2008

Lá vou eu


A partir do momento em que decidi que faria meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre o Grupo Miguilim, percebi que não seria apenas um programa de rádio que me levaria a subir ao palco do Tuca e buscar meu diploma de Jornalista. Cordisburgo mudou minha maneira de enxergar a vida - e, aqui, não me preocupo em atravessar o limiar entre o bom senso e a pieguice. Afinal, não se pode falar em bom senso. Quem, em sã consciência, decide viajar sozinha 1000km para uma cidadezinha trás montanhas no meio de Minas Gerais onde, se diz, há um grupo interessante de contadores de histórias de João Guimarães Rosa? Pois bem, foi assim, como começo dizendo no programa, de um saber daqueles sem mais explicar, que fui parar na "cidade do coração" - de Joãozito.

Bastaram algumas horas em Cordisburgo para que eu tivesse certeza: é aqui que tenho de estar. Não sei para que, por quê. Eu conhecia pouco sobre a literatura de Rosa quando me joguei neste projeto, apenas o básico que aprendemos no Vestibular e vez ou outra fuçamos aqui ou ali. Não é preciso andar muito pela cidade para notar a forte presença desse tal sujeito, o Rosa, em tudo quanto é canto: "Ninguém espera a esperança, espera?", diz um cartaz de uma loja. "Bar Grande Sertão é Veredas", intitula-se um boteco situado na rua principal, onde está o Museu Casa Guimarães Rosa. Bastaram algumas voltas em Cordisburgo para perceber que conhecia muito mais de Guimarães Rosa do que podia imaginar. Ou Guimarães, de mim.

O que se faz em Cordisburgo? Caminha-se. E, no caminho, as pessoas e os lugares vão te chamando. "Entra, toma um cafezinho", dirá a simpática D. Didi, a senhora da foto. "Eu amo esse lugar", você ouvirá do Brasinha, grande Brasinha! A pessoa que me ensinou que lá em Cordisburgo os passarinhos cantam mais bonito porque a gente consegue parar e escutar. Encontrará a d. Antonieta, única pessoa viva da cidade que conviveu com o Rosa; a doceira d. Xêra, para quem mesmo o chocolate mais amargo pode ser doce; o Velho, que sabe muito mais do que a altura e profundidade da Gruta do Maquiné; e, claro, os Miguilins. Os Miguilins me fizeram chorar por dentro aquele choro bom, um choro de saudade que não se sabe que é, nem de donde. Aquela saudade misturada com alegria que deixa o coração tomar conta da gente todo, fazendo a gente até esquecer que é feito de algo, senão coração...Nessas horinhas de descuido, é como se disséssemos 'obrigada' ao universo por estar ali, sem precisar dizer nada. Para mim, isso é felicidade.

O que era para ser um trabalho sobre um grupo de contadores de histórias acabou sendo sobre a pequenina terra sertaneja de Rosa e seus anjos. Os contadores são anjos, arautos que anunciam a chegada do escritor, disse o Brasinha. Sim, porque Rosa está vivo, e vai chegando devagar cada vez que alguém sente que o sertão é sozinho, o sertão é dentro da gente, o sertão é sem lugar; cada vez que um cordisburguense diz "meu primo tinha um amigo que era primo do Guimarães Rosa"; cada vez que um Miguilim respira fundo e começa a contar uma história. Cada vez, ele vive um bocadinho mais.

Todo o programa sobre o Grupo Miguilim foi gravado na cidade, em duas viagens de três dias cada uma. A primeira, foi durante a Semana Roseana, em julho, quando são organizadas diversas atividades para discutir a obra do escritor. A segunda foi em setembro, mês em que ocorre a festa religiosa em homenagem à Nossa Senhora do Rosário. A terceira comitiva, em que irei mostrar o trabalho àqueles que me inspiraram a fazê-lo, será realizada neste fim de semana. Amanhã, embarco para Cordisburgo. Agora, sem gravador e microfone, sem bloco de notas, máquina fotográfica. Embarco para uma linda viagem dentro de mim - o que, mesmo tendo de cumprir um protocolo, foi só o que fiz o tempo todo.