quarta-feira, 5 de março de 2008

Saudade


Antes de dormir, quase sempre me pego pensando, já deitada, em tudo o que aconteceu no dia que passou. Ontem pensei em saudade. Tudo começou depois de ter ficado por um bom tempo ao telefone com uma grande amiga que, hoje, mora longe. Pensei em tudo o que já vivemos juntas, desde crianças, e em todo o correr do tempo. Das nossas brincadeiras, descobertas, aventuras. Quanta saudade eu senti das horas em que passávamos sentadas em frente à quadra ou atrás do prédio conversando, tentando adivinhar o futuro. Deu saudade dos fins de semana na chácara dela, das cangas estendidas no gramado, do nosso tarô mágico, das histórias malucas da adolescência. Tive saudade até da manteiga de cacau que eu carregava para todos os cantos.

Por um certo instante, quis entrar na máquina do tempo e voltar para aquelas memórias.

Aliás, tenho sentido muita saudade nessas últimas semanas. Saudade das mensagens inusitadas no meio do dia ou da madrugada. Saudade dos e-mails. Saudade das coisas que nem sequer acabaram, mas que eu já sinto falta. Saudade de algumas pessoas, saudade da bolachinha de nata, saudade da Mary Poppins, das tardes vazias, daquelas companhias. Saudade de 10 anos atrás. Saudades plurais.

Para mim, saudade é a filha mais velha da dona lembrança e do senhor melancolia, que, por sua vez, é primo da nostalgia. Ela só pode ter vindo dessas junções. Quando a saudade bate triste vira melancolia, mas quando nos faz sorrir, é porque veio de uma lembrança boa.

Sentir saudade não é ruim. Gosto de senti-la, pois só assim consigo olhar para trás e ver o que passou. Dói, eu sei, sentir saudade de uma pessoa que já se foi, mas nem por isso a saudade deixa de ser bela. Acredito que a morte é uma grande causadora de saudade. Algumas pessoas e alguns momentos serão apenas saudade mesmo, é preciso conviver com isso. A saudade eterniza tudo e o legal dela é poder relembrar. Mais legal ainda é quando dá pra “matar a saudade” com um abraço apertado, desses que tiram o fôlego.

Quando pequena eu tinha raiva de certas saudades. Não entendia o porquê daquele sentimento que me trazia lágrimas. Aí descobri que no começo não é saudade, mas sim a dor da perda, a falta, uma angústia, uma melancolia. Até que lembrei o que naquela época me fez chorar e senti uma saudade doce, boa. Mais uma vez entra o Tempo para desmistificar as coisas. Descobri, ainda, que “saudade” são plantas. E também são poucos os países que têm uma palavra para traduzir a vastidão desse sentimento tão profundo.

Saudade, no “Aurélio”, se define assim: lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia. Pesar pela ausência de alguém que nós é querido.

Gosto de outras duas definições. Uma delas ouvi em “Cinema, Aspirinas e Urubus”: “saudade é bom porque passa”. Tão bonito. É verdade, a saudade é passageira. Vem com um momento e logo se vai. Às vezes dura minutos, horas, pode ficar por um dia inteiro, alguns instantes, mas sempre passa. Será que existe saudade eterna? Acho que não, talvez uma falta eterna, mas não saudade. E entre as veredas de Guimarães Rosa li essa explicação: “toda saudade é uma espécie de velhice”, disse ele na voz de Diadorim. Pois é assim mesmo, envelhecemos a cada saudade.

Pensando na imagem para ilustrar o post, encontrei essa cadeira vazia, nessa sala vazia. E senti saudade.

5 comentários:

Geó disse...

que lindo aneto...
deu vontade de chorar.
sabe de uma coisa? tô com saudades de vc amiga! de verdade!

sushi disse...

ana, não me lembro onde li, mas tem uma frase que nunca esqueço "saudade é o preço que a gente paga pelas coisas boas que a gente passou". a gente só tem saudade dos sorrisos, das coisas boas que foram. eu acho super esquisito, é um sentimento que que mistura alegria com perda. saudades são pedacinhos de felicidade que se perderam no coração e esqueceram de ir embora.

poesia potiguar disse...

Menina Ana... que inspiração mais abençoada foi essa sua!! Lindo texto sobre um dos sentimentos mais incríveis e belos que podemos ter!

Beijo!

Renato Sansão disse...

"Para mim, saudade é a filha mais velha da dona lembrança e do senhor melancolia, que, por sua vez, é primo da nostalgia. Ela só pode ter vindo dessas junções. Quando a saudade bate triste vira melancolia, mas quando nos faz sorrir, é porque veio de uma lembrança boa."

Que bonitinho isso! Me senti lendo 'Meu pé de laranja lima'.

Gosto da definição do Rio Negro e Solimões: 'a saudade é o prego, coração é o martelo.' Se olhar muito fundo, não tem como não bater aquela brisa que traz lembranças, lembrançonas e lembrancinhas, daquelas que vem no saquinho finzin da festa.

Muuuito bãooo o blog, vou colocar na bisoiada da molecada.

MSN?

bjin!

Marina Morena disse...

lindo texto, aninha! muito bom isso: "Para mim, saudade é a filha mais velha da dona lembrança e do senhor melancolia, que, por sua vez, é primo da nostalgia. Ela só pode ter vindo dessas junções".

acho q já tinha lido, mas o link do seu blog me trouxe aqui de volta e o texto bateu forte.
Parabéns! bom demais =)