sexta-feira, 2 de maio de 2008

Trafegando


Acordei às 8h45, acendi o abajur - ainda com os olhos fechados -, puxei o telefone do gancho e disquei o número. Ocupado. Tudo bem, não vou me estressar no primeiro minuto do dia, né, pelamor. Virei para o outro lado da cama, o da parede, e esperei alguns segundos. De manhã, antes de me levantar, gosto de contar até 30. "1, 2, 3....". No 30, eu levanto. Não, não é toc ou qualquer coisa do gênero, juro. Eu posso muito bem não levantar no 30; mas gosto assim, ué. Bom, voltando. Liguei de novo para el tráfego. "Oi, Djair, é a Giovanna, tudo bom?", disse, sem nem cogitar disfarçar minha rouca voz de sono. Ele: "Giovanna?! Acordada a esta hora?". Fiquei imaginando o que passou pela cabeça do Djair para dizer isto. Será que ele acha que não tenho cara de quem acorda cedo? Ou então está tão acostumado a me ver no jornal tarde da noite, mendigando uma carona, que não achou que eu pudesse levantar da cama antes das 10hs. Ou, who knows, deve ser um costume dele falar isso para as pessoas, de manhã. "Oi Fulano! Acordado a esta hora?". Rs. De qualquer forma, nada como começar o dia com uma coisa inesperada, mesmo que ela seja bobinha, como essa.

Desliguei o telefone e fiquei morgando na cama mais meia hora, pensando em meu itinerário ("Mercadão-Liberdade-Santa Luzia....ou Santa Luzia-Liberdade-Mercadão?"). Vesti a malha cor-de-rosa que ganhei da tia Carlota, uma meia bem quentinha, um sapato velho de guerra e um cachecol xadrez. Às 10h05, achei que o carro do tráfego estaria me esperando lá fora. "Eles não tocam a campainha, né, filha?", comentou, apropriadamente, meu pai. 'Eles' são os motoristas do Estadão. Só uma interrupção: nunca me esqueço quando minha irmã virou pra mim e disse "tráfego???", com uma cara de espanto, achando que se tratava de "tráfico". Continuando: o motorista da vez era o Prado. Ele tem olhos verdes e cara de quem entende de caminhos. E vestia, nesta sexta-feira-cinza, um casaco muito mais adequado do que o meu. Conversei um pouco com o Prado, que me fez lembrar (ok, memória bizarra) de O Diabo Veste Prada - assisti ontem, por acaso, na tv - e que, por sua vez, me fez lembrar da Prada, a grife, e lembrei, ai, como quero uma bota marrom de cano alto para usar com minha calça jeans skinny, a próxima aquisição. Consumista (não me orgulho...). Na melhor das hipóteses, alego: foi tudo idéia do Oscar Wilde.

Impressionante, mas as conversas com os motoristas do tráfego são sempre muito inspiradoras. Tenho na cabeça dezenas delas; algumas anotadas no bloquinho da Audrey Hepburn que carrego comigo. Gosto dos apelidos que eles inventam uns para os outros, de saber quem são eles, se são casados (quase sempre são divorciados), se têm filhos, o que fazem no fim de semana, aonde moram, qual boteco freqüentam. Ontem mesmo conheci um motorista tão gente fina que fiquei com vontade de dar a mini-champanhe que carregava na bolsa para ele. José. É o Zé, pai zeloso da Mayara, que trabalha quantas horas forem necessárias de segunda a sábado. Os domingos são preciosos, ele me explicou. "Acordo cedo, deixo a casa em ordem e espero a Mayara, que mora com a tia dela, chegar. Aí coloco minha bermuda, um chinelo, e vamos, juntos, comer no Ceará".

Bom, tudo isso para dizer que, em busca de uma bendita pasta de amendoim chamada Amendocrem, no centro, tomei um dos melhores banhos de chuva do ano (a pasta, fui achar em uma estante do Santa Luzia). Encharcada, fumei um cigarro delicioso no posto de gasolina "H" ao lado do Mercadão, devorei bolinhas de wasabi no carro e agora estou aqui, no quentinho da redação. Uma parte do coração, na Louisiana.

4 comentários:

Joana disse...

Que delicia de texto, Naneto!

Confissões de uma balzaquiana... disse...

Imaginei a história.
Com todas as cores possíveis.
Delícia de texto, Nana!

marcela disse...

melhor ser repetitiva do que cair na bobagem de não fazer jus à beleza do que eu li: que delicia.

e que delícia descobrir esse lugarzinho. tô encantada.

Bruno disse...

Gostei muito do texto! Acho mesmo que o seu Zé dos domingos sagrados merecia a champanhe. Em um brinde, é claro!