segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Nada Será como Antes


Crítica de música também é cultura. O jornalista inglês Simon Reynolds, escrevendo sobre o músico Morrissey, deu uma das mais belas e precisas definições sobre melancolia que eu já encontrei.

"Melancolia é a fusão sofisticada de dois sentimentos contraditórios. É uma beleza que bate fundo, ou uma mágoa doce. Qualquer um que tenha idolatrado sua dor, tentado prolongá-la, brincado com a idéia de exacerbá-la; qualquer um que tenha sido levado a demorar-se dentro dela, mesmo quando já pudesse estar recuperado há muito tempo, preferindo a companhia de fantasmas à falta de sonhos da sociabilidade cotidiana, qualquer pessoa nessas condições entende a melancolia."

Lembrei dessa definição neste final de semana quando pensava sobre a dor. Um raio x de corpo inteiro nunca captaria aquela sensação, que no entanto está lá, em algum lugar do pescoço até o estômago. Parece que ela se esconde, e de repente no ônibus, no bar, na piscina ou na cama ela reaparece, aguda, sem respostas, sem perdão.

Você até pode mandar ela embora, ou jurar que nunca mais vai se encontrar com ela. Mas ela teima em voltar, inexplicável.

Do mesmo jeito que ela vem, súbita, ela pode ir embora. Claro, se você quiser. Alguns não querem, não deixam, se agarram nela. Porque às vezes ela pode ser a única e última lembrança de um tempo que já passou. De alguém que se foi. O último suspiro de uma época vivida, de um sorriso conhecido.Aí sim é preciso um pouco de esforço.

Esforço para deixar a dor ir embora, mesmo sabendo que a qualquer minuto de descuido ela volta. Volta cada dia menos, cada dia diferente, às vezes intensa, às vezes quase vento. Suspiro. Por muitas vezes tentei afastar a dor, sofrendo por antecedência. Outras vezes preferi fazer dela minha companhia constante, para não ter que encarar o choque de conhecer a euforia sabendo que um dia a tristeza voltaria.

Eu sei que talvez esse texto pareça triste, e talvez ele seja. O que não quer dizer daqui a cinco minutos eu não posso estar cantarolando uma música do Clube da Esquina, na voz do Milton Nascimento, uma voz que quando eu ouço, consigo sentir naqueles breves minutos tristeza, melancolia, felicidade, profundidade, e todo aquele restinho que a gente não consegue nomear. Pode até ser essa, com o sugestivo nome de Nada Será Como Antes. Tão simples que chega a ser óbvio, mas é bom sempre lembrar que um rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.

Eu já estou com o pé na estrada

Qualquer dia a gente se vê

Sei que nada será como antes, amanhã

Que notícias me dão dos amigos?

Que notícias me dão de você?

Alvoroço em meu coração

Amanhã ou depois de amanhã

Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Num domingo qualquer, qualquer hora

Ventania em qualquer direção

Sei que nada será como antes amanhã

Que notícias me dão dos amigos?

Que notícias me dão de você?

Sei que nada será como está Amanhã ou depois de amanhã

Resistindo na boca da noite um gosto de sol

3 comentários:

D. disse...

Muito bom, Geó.
A voz do Milton tem mesmo esse caráter dúbio da definição de melancolia do Simon Reynolds. Gostei de ver, meu. Depois vou querer publicar no Eu Garimpo, pode?
Quero sua opinião agora: http://eugarimpo.blogspot.com/2007/12/in-rainbows-internet-e-o-futuro.html

Ana disse...

Geózis!
Que lindo! Tudo o que eu precisava numa manhã nublada com essa.
Amo você!

Anônimo disse...

Das dores da vida, as que mais me envolvem são sempre as que trazem a tal "última lembrança de um tempo que já passou".
Intensa, essa tristeza nostálgica chega a fazer sorrir - porque as lembranças são doces e tão intensas que fazem o tempo voltar por um instante - pra depois me derrubar num choro solto e quase desesperado pela certeza de que não há mais o que fazer.
Há algum tempo, no entanto, estou livre dessas tristezas. Só o que faço é rir e sentir por ter pessoas tão especiais que quase me fazem perceber a beleza, efêmera, das borboletas. E se um dia olhar pra trás e ver que esse tempo passou, é nesse colo que quero me acalmar e olhar pro futuro.