quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sertão Despedaçado


Conheci Pacu faz poucos dias. Foi quando eu caminhava pelo sertão de Riacho das Almas. Lá longe.
Pacu era um menino pequeno de tamanho, franzino, muito desconfiado e destemido todo. Não tinha nome de pia, era conhecido só por Menino, como tantos outros por aquelas bandas. O apelido, Pacu, ganhou foi do moço do circo. Ele me disse que não gostou muito, mas várias vezes ouvi repetindo baixinho e orgulhoso: PACU.
Não cheguei a perguntar sua idade. Devia ter uns 10 anos, talvez um pouco mais. Tinha cabelos negros e cacheados. Sua pele era queimada de sol.
Bem cedo aprendeu a fazer rapadura. Docinha! Na família Breves era assim, todos ajudavam e quase nunca sorriam. Para falar a verdade, só vi Pacu sorrir duas vezes. A primeira foi no circo, junto com seu irmão Tonho. A outra vez foi no balanço. Adorava o vai-e-vem daquele brinquedo. Mas o que esse menino mais gostava era de inventar histórias. Passava horas pensando na história de uma sereia que se apaixonava por um Menino.
Era uma criança adulta que carregava desde que nascera o peso da tradição. Trazia consigo a lei do sertão de vingança sem perdão.
E foi porque sertão é lugar “onde manda quem é forte, com as astúcias” que meu amigo Pacu foi-se embora cedo. Deve estar, agora, sonhando em outra travessia ou brincando em outros balanços por aí.
O curioso foi quando voltei pra casa e, remexendo papéis antigos na gaveta, encontrei algumas palavras do poeta João Cabral. E não é que, além de tantos Severinos, ele também conheceu o Pacu?

“— De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
— E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria”.

2 comentários:

poesia potiguar disse...

ótima e merecida homenagem ao Pacu Ana... Amo esse filme e penso que ele tem uma das cenas mais lindas do cinema brasileiro.

Aquela em que a moça do circo dança, gira e poetiza se enlaçando sob o céu azul do sertão - enquanto é observada por um Tonho apaixonado, extasiado...

Obrigada pela lembrança!

jose disse...

olá eu moro no Rio de janeiro,sou natural de Riacho das Almas,vi um filme que relta a história deste menino na tv brasil.Queria rever o filme mas não sei o nome.Se você que está lendo este recado sober mande pra mim por e-mail.