terça-feira, 22 de janeiro de 2008

TEMPO


Na cabeça de Maria, ultimamente, tudo era uma questão de tempo. As melhoras viriam com tempo, as dores não doeriam mais com o passar do tempo. Para conseguir aquele trabalho novo bastaria um pouco de tempo. No seu horóscopo dizia que todas as mudanças só se concretizariam com o tempo. Tempo. Aí descobriu que era o Tempo o grande comandante da vida. Às vezes ele corria macio, amigo. Em outras passava bravo, áspero feito lixa.

Ouvindo seu radinho portátil, Maria percebeu as várias faces do Tempo. Tinha o “tempo da delicadeza”, o tempo de “te amar”, o tempo que “refaz o que desfez” e o tempo “de poder a gente se desvencilhar da gente”, como nas canções de Chico Buarque. O Tempo do Lenine apostava corrida, era ligeiro. Acelerava e pedia pressa, ao passo, que queria paciência. Pode isso?

Quando criança sua mãe lia uma poesia que até hoje Maria não se esquece. Era cheia de tic-tacs, sobre um Tempo pra lá de ansioso..."passa, tempo, tic-tac. Tic-tac, passa, hora. Chega logo, tic-tac. Tic-tac e vai-te embora. Passa, tempo. Bem depressa, não atrasa, não demora...".

Certo dia Maria reparou que o Tempo era um anjo da guarda. Não só dela, pequenina. Mas de todos os que viviam. Afinal, havia tempo pra tudo: para curar dores, rancores. Tempo de alegrias, de amores. Tempo de lágrimas e sorrisos. Tempo da seriedade e das brincadeiras de criança. Tempo de chuva, Tempo de sol. Tempo dos morangos, Tempo dos caquis. Tempo bom, Tempo ruim.

O Tempo tinha lá suas contradições, mas nada era melhor do que o próprio Tempo. Maria sabia que ele a fazia crescer, envelhecer, mas era o próprio Tempo que fazia as lembranças. Senão, qual a graça de ser Tempo?

Decidiu buscar no dicionário o significado do Tempo. Achou tanta coisa...se assustou com a quantidade de definições para uma palavra de apenas cinco sílabas. Tinha Tempo de tudo. T-E-M-P-O.

O Tempo era uma sucessão de Tempos: horas, dias, meses, anos, décadas, séculos. O Tempo também era presente, passado e futuro. Na verdade, o Tempo era tudo, mas não queria ser nada, pobrezinho. Queria ser só Tempo.

A vida de Maria também era cheia de Tempos...tinha o Tempo do surf, o Tempo do cinema. O Tempo de conhecer e o da obrigação de esquecer. Tinha um Tempo que era efêmero, logo se ia, e outro, infinito. Pensou no Tempo do João, do José. E tinha um tempo só dela. Tempinho, Tempão. E percebeu que tudo era culpa do Tempo. E tudo era graças ao Tempo.

2 comentários:

Nana disse...

"O instante é este. O instante é de uma iminência que me tira o fôlego. O instante é em si mesmo iminente. Ao mesmo tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante". Ahhh Clarice...

Anônimo disse...

"Densidade e qualidade literária, parabéns. Ass.: MARI