segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Águas de dezembro


É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto. Agora são as águas de dezembro, levando tudo o que a gente quer que leve. Tudo bem que às vezes algo que pedimos para permanecer muda e o que queremos que mude se mantém. Como costumava dizer uma pessoa querida, a graça da vida é a imperfeição.

Numa dessas andanças por blogs, achei a reflexão de uma moça sobre as vésperas das festas. Ela dizia que de uma certa forma essa coisa toda de lista de desejos, o-que-eu-quero-deixar-para-trás é muito incômoda, e que no fim a gente acaba sentindo um certo alívio quando tudo isso passa e o ano finalmente começa.

Mas são bonitos os rituais. A 25 de Março pipocada de pessoas no dia 22 de dezembro buscando presentes para a família e os amigos. "Muita gente deixou para fazer as compras em cima de hora", a repórter disse na tv como se tivesse cantado um bolão, como se todos os anos milhões de pessoas não fizessem suas compras poucos dias antes do Natal. Acho bonito ler textos e mais textos sobre recomeços e sonhos. Ver um menininho, quando desafiado a deixar aos telespectadores do jornal uma mensagem de Natal dizer simplesmente "feliz Natal", fazendo cara de espanto, desnudando o óbvio. Mas não é o que a gente faz todo fim de ano?

Fim de ano é mesmo isto: repetir quantas vezes for preciso a palavra coração, abraçar quem se ama e dizer talvez mais alto o que já foi dito o ano todo, se emocionar com as luzes todas acesas, acreditar que, no fundo no fundo, o bom velhinho existe nalgum lugar, molhar os pés na água de dezembro, seja ela da chuva ou do mar, e pedir com força que o mais ousado dos sonhos se realize. É por isso que no dia 2 de janeiro o incômodo vai embora: o sonho, de nosso, pessoal e intransferível, sai do peito e vira do mundo.

2 comentários:

Joana disse...

Não, que delícia de texto, que lindo...meus olhos se encheram d'água!!!

intelligence disse...
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