
...e "As Meninas de Lá" resolveram aproveitar as férias! Mas elas estarão de volta na segunda-feira, dia 05/01/09.
Numa noite de verão elas saíram para comer chocolate com morango. Foi quando avistaram, do outro lado da rua, uma festa que tinha pizza boa e tocava música alta. Rapidamente, entraram e dançaram no escuro.
Eram moças que não gostavam de planejar o futuro e adoravam curtir os típicos embalos de sábado à noite.
Sonharam tanto até que aquela dos cabelos enroladinhos e olhos que lembram bolas de gude quis virar trapezista.
Como nunca pára em casa, uma delas foi fazer uma viagem para um lugar cheio de dúvidas de meninas e de mulheres.
Nossas personagens comeram muita torta de limão para adoçar a travessia.
Despediram-se de uma história, mas contiuaram buscando explicações.
Num dia de sol, sentaram-se num velho balanço e fizeram algumas escolhas. O tempo passou e elas deram as mãos.
Fizeram uma viagem, no dia 14 de fevereiro, para o sertão despedaçado de Pacu.
Na volta, tomaram banho de chuva e cantaram embaixo dela.
Tiveram saudade, daquelas que apertam o peito e, caminhando, foram parar na cidade de Guimarães Rosa.
Conheceram coisas bizarras e no supermercado correram atrás de Nina.
Tiveram desejos, cantaram "Sereia" e foram brincar na roda gigante durante outra chuva de verão.
Mudaram de casa e comeram uma laranja e meia. Foi quando se depararam com Vincent, perdido numa noite qualquer pela cidade.
Comemoraram seus aniversários com direito a bolo e tudo.
Declararam que nada seria como antes e propuseram uma mudança. Mais tarde, mas ainda em tempo, acabaram indo lá para as bandas de Pedra Bela.
A menina que odeia mamão realizou um sonho amarelo e branco e foi se aventurar em uma linda casinha.
Enquanto aquela que adora Adélia voou, mais uma vez, para terras mineiras.
A da risada inconfundível conheceu seu amor vampiro.
Novamente juntas elas se divertiram com a máquina que dava moedas e quando o verão chegou quente, viraram Brisa mansinha e delicada.
Sentada no banco traseiro do táxi, ela observava o vai-e-vem desesperado dos carros em um dos principais cruzamentos da cidade. Além de buzinas e murmúrios das pessoas que por ali passavam, o que se ouvia era o som de “Jingle Bells” ou qualquer canção similar. Foi quando a moça tentou se lembrar da listinha de desejos que preparou nesta mesma época do ano anterior.
Após alguns minutos pensando, começou a rir de si mesma. Tudo bem que muita coisa, de um jeito torto ou de outro, tinha se “realizado”. Porém, outras tantas, sequer, passaram perto de acontecer. Mesmo assim, apesar do sorriso triste que ostentava naquele momento, ela estava feliz. E resolveu que neste final de ano faria diferente. Melhor, não faria. É, nada de listas.
Queria deixar que o correr da vida embrulhasse tudo, para que depois ela, a própria vida, desembrulhasse, como assim tinha lido nas veredas de Guimarães Rosa. Também aprendeu, desta vez com o budismo, que a vida é uma bela caixinha impermanente e que ninguém, ninguém mesmo é capaz de ter sempre as rédeas na mão.
Então, se desfez de qualquer possível catalogação de desejos e decidiu que manteria apenas a vontade de que tudo fosse, novamente, colorido como um quadro de Miró. E deixaria, mais uma vez, Fernando Pessoa conduzir seus pensamentos: “E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.”
Tentava descobrir seu lugar. Seria no cais de Amado, ao lado de Guma, ou , quem sabe, dançando o tempo e o contratempo, seguindo os conselhos de Jorge Maravilha, aquele de Julinho de Adelaide?
Talvez fosse ao lado de Torquato, na sua despedida triste, metafísica, seu adeus nada objetivo. Não conseguia se descobrir. Por que se via muitas. A melancolia da voz de Tom, acompanhado das teclas do piano e o violão de Edu a embalavam, levando-a para bem longe. Sentia uma tristeza que nem era dela, era do mundo. Podia ser de Guma, podia ser de João. Eram todas juntas. Achava bonito sentir isso. “Vem, nem que seja só, pra dizer adeus...”
E de repente o violão alegre e a voz cortante daquele mineiro. Mais uma vez ele... Dessa vez acompanhado dos ecos otimistas de Beto. Juntos celebravam a vida, a amizade, o destino incerto. Uma entrega aparentemente sem medo, aquele velho conhecido. “deixar a sua luz brilhar e ser muito tranqüilo, deixar o seu amor e ser muito tranqüilo. Brilhar, brilhar, acontecer...” Seria ela uma melancólica otimista?
Nesse momento chegou Kim Carnes. Ela cantava os olhos de Bette, aqueles que devem ter hipnotizado muitos outros olhos. Kim contava histórias sobre aquela que tinha os olhos de Bette e deixava os homens todos desconcertados. Com Kim ela só fechava os olhos, sentia-se mais segura, como a se vida estivesse bem ali, na frente, esperando por ela. She knows just what it takes to make a pro blush. She’s got Bette Davis Eyes. ..
Mas veio Caetano e proclamou: nine out of ten movie stars make me cry. I’m alive! Feel the sound of music banging in my belly belly belly…. I know that one day I must die. I’m alive.
Hoje eu acordei com a missão de escrever aqui. Enquanto tomava café, pensava em algo legal para contar. Pensei, pensei e nada.
Liguei a televisão e nem o Alex Atala, que estava no programa da Ana Maria Braga, me inspirou com alguma idéia incrível.
Pois bem, deixei o louro José falando sozinho e vim para o computador, o que não foi muito diferente. Parece que quando temos a “obrigação” de fazer alguma coisa, tudo fica mais difícil. Mas eu não queria desistir assim, tão rápido.
Um clique aqui, outro acolá e, inesperadamente, me surge a imagem da Olívia Palito, a mocinha magrela que namorava o marinheiro Popeye. Talvez tenha me lembrado das manhãs da infância, talvez não.
Sem muito nexo, resolvi colocá-la no post. Logo em seguida, pensei que nem tudo precisa ser tão explicado ou fazer tanto sentido, da mesma forma que a vida é.
Os pés da moça estavam inquietos naquela manhã. Saiu de casa tão cedo quanto atrasada. Com os cabelos molhados, vestindo a primeira roupa que pegou no armário e devorando uma maçã, ela andava quase correndo pelas ruas do bairro. Não podia, mais uma vez, se atrasar.
Chegando no consultório, apenas sorriu desculpando-se pela demora.
— Não tem problema, minha filha, o doutor Alexandre ainda não chegou.
Suspirou aliviada e, enquanto caminhava para a saleta de espera, se lembrou da última vez que estivera naquele mesmo lugar e no tempo que precisou aguardar o tal doutor. Na sala bege, algumas pessoas esperavam os respectivos atendimentos. Ao fundo, ouvia-se uma música baixinha e o andar apressado das secretárias subindo e descendo as escadas.
Sentou na cadeira mais próxima da porta e aguardou. Cruzou as pernas para um lado, depois para o outro. Folheou uma revista e balançou muito os pés. Pensou no tempo, nas férias, no jantar que teria mais tarde até que se lembrou do Hemingway que carregava dentro de sua bolsa roxa. Imediatamente pegou o livro e mergulhou nas aventuras do velho Santiago.
Uma voz estridente interrompeu sua leitura para avisar que o doutor Alexandre havia feito um parto durante a madrugada e, por isso, estava um pouquinho atrasado. A moça, que agora havia colocado seus óculos de hastes azuis, achou engraçado o eufemismo que virara o atraso de 1 hora do doutor. Mas não pensou mais nisso, preferiu voltar para o velho que passava “por uma grande ilha de algas de sargaço que balouçava sobre as ondas....”.
Virou uma, duas, três, quatro, cinco páginas até que a senhora ao lado tossiu e a tirou das letras de “O Velho e o Mar”. A partir daquele momento, voltando para dentro da saleta, ela se irritou com a demora. Olhou algumas vezes o relógio e, da mesma forma que no livro, viu que já se estava fazendo tarde. Pensou no bebê que acabara de nascer e, sem pieguice, na espera que é necessária para isso.
Reparou no quanto a sua repentina irritação ficara mesquinha. Pensou, outra vez, no velho Santiago e sua infindável luta com o enorme peixe de barbatanas cor de violeta pálida e nos dias e noites que o pobre pescador havia passado acordado...esperando.
A moça, então, se sentiu pequena e prometeu não se incomodar com o tempo do relógio naquele dia.
— Ué, eu trabalho aqui há tanto tempo e isso nunca aconteceu comigo!
A amiga foi primeiro e a máquina se comportou normalmente, sem soltar sequer um troquinho. Na vez de Maria, como não podia ser diferente, seis moedas de dez centavos foram caindo desesperadamente no chão. As duas se olharam confusas.
Papo vai, papo vem, Maria aponta para a máquina que dava moedas e pergunta à amiga por que ela não apertava o botão de “café solúvel livre”. No que Gigi responde:
— Ah, esse café é de graça, mas não é muito bom não.
Rapidamente, as duas se olharam e riram, como uma epifania. Enfim, estava solucionado o mistério da famigerada máquina. Mas não sem antes Maria, orgulhosa, afirmar que o café gratuito era, sim, muito bom.
De coque no cabelo, collant cor-de-rosa e sapatilhas penduradas na mochila, lá ia Teca para mais uma aula de balé. Um “pliet” aqui, um “pas de deux” acolá e a postura sempre reta faziam a menina de 11 anos parecer a mais experiente das bailarinas. Todos os dias a mesma rotina de ensaios, o penteado impecável, os saltos, os giros, joelhos esticados e ponta de pé. Tudo, sempre, nas pontas dos pés.
Teca era a garota dos sonhos de todos os menininhos de sua idade, a aluna nota dez. Era a melhor amiga, a irmã companheira, a filha exemplar e, apesar de ser apenas uma criança, já era uma bailarina completa. Tinha uma rigidez quase adulta e era pontual como poucos.
Certa vez, um moço que assistia Teca rodopiando entre um “fouetté” e outro, compôs uma ciranda só para ela:
“Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga,
tem ameba
Só a bailarina que não tem”
“...Todo mundo tem
um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem...”
A menina de olhos verdes e lábios rosadinhos tinha mesmo uma perfeição particular. Vendavais podiam passar, as casas serem chacoalhadas e nada tirava o sorriso e a dança da bailarina.
De tanto observar Teca descobri um segredo, daqueles que só o escuro da noite é capaz de desvendar. Quando todos estavam dormindo, ela descia as escadas de casa na pontinha dos pés, porém sem as velhas amigas sapatilhas. Passava pela sala e atravessava a cozinha até chegar à dispensa. Não demorava muito e tomava um copo cheio de groselha, quase sem água. A mãe da bailarina nunca a proibiu de tomar aquele xarope, mas desconfio que a menina também queria ter uma travessura, igual a todas as crianças. Foi assim que ela contrariou a frase do poeta: “só a bailarina que não tem”. Agora ela tinha.
Além das bolachinhas de nata, da Mary Poppins e do Snoopy, a Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo, uma das belas canções de O Grande Circo Místico, me faz voltar no tempo da infância e me sentir mais feliz nessa terça-feira de sol.
Ouça aqui:
Vincent é um garotinho excêntrico. Gosta de andar escondido dentro de uma caixa de papelão ou atrás de lentes escuras. É do tipo que não dá confiança a qualquer pessoa. Fala pouco. Usa protetor solar todos os dias e é viciado em cereais coloridos. Tem os cabelos pretos, que dificilmente estão penteados. Seus olhos são igualmente escuros e o rosto comprido faz as bochechas rosadas ficarem pequeninas.
A mãe de Vincent vive o mandando brincar na rua com as outras crianças, mas ele gosta é de inventar seu próprio mundo, sozinho. Faz máquinas, balões, desenhos, bandeiras, peões, mesmo que seja só no pensamento. Vive atrás de livros. Os de Edgar Allan Poe são seus favoritos. Acho que comecei a gostar de “O Corvo” com ele:
“Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
‘Uma visita’, eu me disse, está batendo a meus umbrais...”.
Às vezes penso que Vincent é um menino triste. Logo mudo de idéia ao vê-lo assobiar. Apesar de não se juntar muito com os outros garotos de sua idade, ele não dispensa o futebol às segundas-feiras durante o recreio.
Seu quarto parece um refúgio intocável, cheio de segredos e uma bagunça sem tamanho. Certa noite percebi que, como quase todas as crianças, ele tinha medo do escuro! Dava pulos a cada barulho vindo da janela. Já com seu pijama de flanela, deitado e quase dormindo, eu improvisei, nos versos de um poema, uma canção:
“...É só isto, e nada mais”, Vincent, "É o vento, e nada mais. Noite, noite e nada mais."